segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Dilma traça plano para emancipar internet brasileira

Presidente deve aproveitar as atenções voltadas para si na manhã de terça-feira, quando abre a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, para criticar a espionagem norte-americana

Zero Hora - 23/09/2013

A presidente Dilma Rousseff parece decidida a emancipar a internet brasileira. A revelação, no início do mês, de que a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) estaria acessando dados sigilosos da Petrobras foi o estopim. Dilma desenhou — e deve explicitar hoje — uma estratégia para tornar a rede no Brasil mais segura para os usuários e menos dependente dos EUA (veja ao lado). As propostas da presidente são tão ousadas como complexas. Entre criar um serviço de e-mail coordenado pelos Correios e negociar com Google e Facebook para que os dados de brasileiros sejam armazenados em território nacional, o Planalto chega a cogitar a construção de um novo cabeamento submarino ligando o Brasil à Europa.

O momento não poderia ser mais favorável à presidente, que deve aproveitar as atenções voltadas para si na manhã de terça-feira, quando abre a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Ao se posicionar frente ao microfone — e aos outros 192 líderes de Estado presentes—, deverá dar o tom do debate internacional sobre espionagem, em resposta ao esquema de vigilância exposto pelo ex-agente da CIA Edward Snowden. Para especialistas da área de segurança, porém, o plano de separar a internet brasileira da rede americana é mais ambicioso do que pragmático.

Leonardo Lemes, coordenador do curso de Segurança da Informação da Unisinos, acredita que o foco deveria ser fortalecer a segurança interna, e não procurar tantas alternativas externas.

— Até podemos criar pontos de troca de tráfego e ampliar canais de comunicação, mas nada disso vai adiantar caso não tenhamos tecnologias próprias de monitoramento, controle e proteção — avalia.

Apesar de acreditar que a ideia de criar uma internet independente é extrema, Demi Getschko, um dos pioneiros da web no Brasil, avalia que Dilma tem na fala de hoje uma boa oportunidade de pressionar Barack Obama por mais transparência na coleta de dados de usuários não americanos. Getschko crê ainda que a ideia de fazer um novo cabeamento entre Brasil e Europa é ineficiente, sendo mais indicada uma solução diplomática.

— Deveria haver acordos internacionais que dissessem que não é uma boa prática espionar dados que passem no seu país — indica Getschko, que atualmente coordena os projetos do Comitê Gestor de Internet no Brasil (CGI.br).

O plano de Dilma, dadas as ressalvas, é executável. De acordo com especialistas, a parte mais delicada — e não necessariamente a mais trabalhosa — seria convencer empresas como Google e Facebook a armazenarem os dados de usuários brasileiros em território nacional.

— O Brasil representa uma parcela muito grande dos usuários dessas redes. Isso poderia ser usado como argumento, mas é difícil imaginar a Google construindo servidores no Brasil — explica Lemes.

Para Getschko, mesmo que fossem criados servidores nacionais, isso não significaria que os usuários brasileiros estariam mais protegidos.

— Mesmo que armazenem aqui, eles ainda estão suscetíveis à espionagem. Eles não deixarão de ser armazenados fora, só seriam "duplicados"— conclui Getschko, lembrando que os centros de dados dessas empresas recebem investimentos altos e periódicos para manter um padrão de segurança.

Apesar de, em um primeiro momento, parecer radical, o governo brasileiro se torna símbolo do debate por uma internet mais plural e transparente. Depois de uma série de respostas apáticas do governo americano aos inquéritos de Dilma, ganha força hoje, na fala da presidente, uma renovada discussão sobre os limites da vigilância digital.



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