domingo, 14 de julho de 2013

Porta aberta à espionagem

Comunicações de Brasil e região dependem dos EUA, o que põe até dados militares em risco

O Globo - 14/07/2013

O Brasil e outros 31 países da América Latina mantêm abertas suas redes públicas e privadas de comunicação. Essas nações têm em comum, além da retórica governamental, a ausência de políticas efetivas de proteção da infraestrutura de telecomunicações e do tráfego de dados nas redes de internet.

As revelações do GLOBO na semana passada sobre atividades de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) no Brasil e na América Latina aumentaram a percepção da vulnerabilidade. No caso brasileiro, até motivaram as Forças Armadas a uma análise de "dados militares ou dados de interesse militar que podem ter sido atingidos e obtidos" - segundo o Ministério da Defesa. Os resultados não são conhecidos. Sabe-se também que o sistema de comunicações diplomáticas está sob revisão.

O histórico de leniência dos governos da região na segurança dos fluxos domésticos de dados resultou em situações paradoxais. O Brasil, por exemplo, na última década se tornou um dos cinco maiores consumidores mundiais em serviços de telecomunicações, equipamentos, sistemas operacionais e aplicativos de computação. Mas, pessoas, empresas e instituições continuaram expostas a todo tipo de espionagem.

Pontos de troca de tráfego

Os documentos da NSA, aos quais O GLOBO teve acesso, foram copiados por Edward Snowden, ex-colaborador da agência. Eles mostram o Brasil como um dos países mais espionados, durante a última década, ao lado de China, Rússia, Índia, Paquistão e Irã. Provam, também, que até 2002 funcionou em Brasília uma das 16 estações de espionagem nas quais agentes da NSA trabalharam com equipes da CIA (Agência Central de Inteligência). Não se sabe se as atividades em Brasília continuaram.

O embaixador dos EUA em Brasília, Thomas Shannon, confirmou ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, no entanto, o prosseguimento da "coleta de metadados" (números discados, troncos e ramais telefônicos usados, duração, data hora, localização, endereços eletrônicos de remetentes e de destinatários de mensagens, assim como sites visitados).

O embaixador ressalvou, segundo o ministro, que isso acontece "fora do território brasileiro". Por essa versão oficial da diplomacia americana, a filtragem de dados estaria ocorrendo nos chamados Pontos de Troca de Tráfego. Ou seja, nas conexões de redes de dados nacionais com as supervias da internet, que facilitam a interligação entre usuários nos cinco continentes, de forma direta e em frações de segundos.

Aluguel caro, pouco gasto interno

Todas as redes da América Latina têm troncos-chave de conexão global operados por empresas instaladas em território americano. O Brasil paga cerca de US$ 650 milhões por ano pelo acesso de suas redes a essas supervias, a partir dos conectores nos EUA. O fluxo doméstico de dados ocorre por quatro delas, em cabos submarinos que passam pelo litoral do Rio, em Santos e em Fortaleza. Daí seguem para os Pontos de Troca de Tráfego instalados nos Estados Unidos, onde são feitas as conexões entre o Brasil e o resto do mundo.

O contínuo armazenamento de registros de comunicação (metadados), agora confirmado pelo embaixador dos EUA, é apenas um dos meios utilizados pela NSA na busca por informações privilegiadas. O acesso ao conteúdo das comunicações (por texto, voz e imagem) ocorre a partir de equipamentos e programas desenvolvidos pela agência em parceria com a indústria instalada nos Estados Unidos, e sob patrocínio da legislação de segurança nacional. Pela documentação da NSA, no Brasil e na América Latina foram aplicados vários sistemas de espionagem, entre o ano de 2002 e o último mês de março - não é possível afirmar se as operações prosseguem.

Em tese, poderiam ser consideradas mais protegidas áreas públicas e privadas onde as comunicações são codificadas. No Brasil, isso ocorre basicamente nos segmentos militar, diplomático, financeiro e energético (Petrobras e ANP). Na prática, a insegurança prevalece. É certo, por exemplo, que as representações diplomáticas do Brasil em Washington e na ONU (Nova York) estiveram no "alvo" da NSA - indica documentação da agência de setembro de 2010. Não foi possível confirmar se aconteceu.

São múltiplas as evidências das fragilidades brasileiras:

* No orçamento federal do ano passado, estavam reservados R$ 111 milhões para investimento em Defesa Cibernética, mas só foram usados R$ 34,4 milhões. Neste ano, foram R$ 90 milhões, mas até a última terça-feira (9/7) os gastos somavam R$ 11,3 milhões - informa a ONG Contas Abertas;

* Desde 1968, portanto há 45 anos, o país guarda planos para construção de um satélite de comunicações - atualmente aluga oito, todos de empresas estrangeiras. Decidiu-se para o próximo mês o início do processo de compra de um, ao custo de R$ 700 milhões;

* Dependente das redes, de equipamentos e software externos para manter seu fluxo de dados, o país sequer dispõe de padrões locais de segurança;

* Prevalece a burocracia. Pelas contas do chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general José Elito Carvalho Siqueira, as decisões sobre segurança em comunicações envolvem 35 departamentos de 15 ministérios e mais 300 organismos federais, estaduais e municipais.

Os EUA avançam na direção oposta: a lei protege a espionagem de estrangeiros, e políticas oficiais induzem a alianças entre a NSA e empresas privadas.

As parcerias corporativas da NSA foram intensificadas no governo George W. Bush. Há um acordo básico de segurança de rede ("Network Security Agreement") entre a agência e empresas como AT&T, QWest, EDS, H-P, Motorola, Cisco, Qualcomm, Oracle, IBM, Intel, Verizon e Microsoft, entre outras.

Em 2004, organizações civis protestaram na Justiça. Bush mudou a lei e blindou empresas. Seu sucessor, Barack Obama, expandiu o raio de ação da NSA: ela fez alianças com Yahoo, Google, Facebook, Paltalk, YouTube, Skype, AOL. A Apple aderiu em outubro do ano passado.

Essas 20 empresas foram procuradas nos EUA. Dezesseis não responderam. A Motorola e a Qwest preferiram não comentar. A Cisco alegou que não fornece a "nenhuma agência do governo acesso às nossas redes e cumpre com as leis e regulamentos dos países em que opera". Exemplificou com o software-espião "Prism" da NSA: "Não é um programa Cisco e redes Cisco não participam do programa. Além disso, a Cisco não monitora comunicações de cidadãos privados ou organizações governamentais na China, no Brasil ou em qualquer lugar."

A Google afirmou que seu acordo com a NSA é público há quase quatro anos: "Qualquer um pode baixá-lo no site da Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês). Abrange o cabo submarino "Unity" que corre entre o Japão e os Estados Unidos. Como sempre dissemos, não permitimos equipamentos do governo em propriedades do Google para coleta de dados."

Esse tipo de cooperação semeia ambiguidade nas relações empresas-consumidores. O Google diz aos usuários privilegiar "segurança e privacidade", mas o governo da Suécia proibiu o uso de seus aplicativos em ambientes de trabalho. A Microsoft, que fatura US$ 3 bilhões por ano em vendas ao governo brasileiro, é lacônica nos "termos de uso" dos seus softwares: "Sua privacidade é nossa prioridade".


No espaço, Brasil fica à mercê do espião


País investiu R$ 1,5 bilhão para ter próprios foguetes e satélites, mas nenhuma missão chegou ao fim

O Brasil não apenas tem ferramentas insuficientes para conter ações de espionagem operadas por satélites como está muito longe de conhecer os meios pelos quais informações estratégicas são capturadas pelos Estados Unidos ou por qualquer outra nação. Todas as missões de tecnologia de ponta "made in Brazil" para captar do espaço dados e imagens na Terra estão pelo caminho ou convivem com atrasos simbólicos de um programa que se notabiliza pela falta de planejamento de longo prazo.

Levantamento inédito feito pelo GLOBO permite afirmar que as cinco principais operações lançadas na última década para construir satélites ou foguetes - única fórmula para o teste completo de uma nova tecnologia no setor aeroespacial - já receberam R$ 1,5 bilhão. Porém, nenhuma missão foi concluída até hoje, o que torna o país incapaz de fabricar equipamentos que, ao menos, identificariam a localização do espião.

Como resultado, além da obsolescência de componentes e desperdício de tempo e dinheiro, o país é refém de quem o espiona para monitorar o que ocorre em território nacional. Pior: depende da boa vontade - ou não - de outros países para dar seguimento aos principais projetos neste setor, cuja marca é o rigor técnico e o controle de falhas.

Defeito difícil de justificar

Foi exatamente a falta de competência técnica que levou o Brasil a comprar dos americanos uma espécie de transformador que regula a energia de um satélite que deveria ter sido lançado no ano passado. Trata-se do satélite Cbers 3, o quarto de uma família de cinco equipamentos produzidos em cooperação com a China para o registro de dados e imagens da Terra.

Ocorre que este "transformador de energia" apresentou sérios defeitos. O lançamento está atrasado em pelo menos um ano. E fonte graduada do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) afirma: a compra do equipamento talvez "não tenha sido a melhor escolha" e "é difícil encontrar justificativa" para a quantidade de defeitos identificada nesse componente vital.

Curiosamente, o Brasil lançou há pouco menos de dez anos um projeto chamado de Plataforma Multimissão (PMM), cujo objetivo é exatamente o desenvolvimento do componente de suprimento de energia. Mas a missão da PMM ainda repousa em solo, dentro do Inpe.

O nó tecnológico se repete em sistemas ainda mais sensíveis, como a correção do rumo de uma câmera de vídeo a bordo de um satélite, que depende de um dispositivo para controle de atitude e órbita. Este mecanismo permite que o "dono do satélite" mude a rota de sua abordagem. Um sistema como esse, por exemplo, fez com que, na Guerra das Malvinas, os americanos mudassem o curso de um satélite e suspendessem o serviço de dados meteorológicos para o Brasil durante alguns dias. Só este ano o Brasil testará seu componente.

O ministro da Ciência e Tecnologia admite, sem rodeios, que o Brasil enfrentou graves dificuldades - seja por pressão externa ou por desorganização interna - para fazer engrenar o programa. E afirma que o país demorou muito a compreender que cabe à iniciativa privada, induzida pelo Estado, tocar os projetos que incorporam novas tecnologias.

- A marca do Programa Espacial Brasileiro é o atraso, não só na área de lançadores (foguetes) como de satélites. O Cbers está atrasado. Outros projetos estão atrasados. A minha opinião é que nós não temos um sistema eficaz de operacionalizar esse processo. Trata-se de repartições públicas de administração direta. O input de recursos é falho. Você não entrega os recursos na hora em que são necessários - afirmou ao GLOBO o ministro da Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp.

Oportunidade única perdida

Enquanto o Brasil patinou, China, Índia e Coreia do Sul fizeram seu dever de casa e usaram o que os técnicos chamam de "janela de oportunidade", criada com o fim da Guerra Fria, para se aproximar minimamente dos grandes detentores de tecnologia espacial: EUA, Rússia, França e Japão.

Como ilustração, não há exemplo melhor do que o antigo projeto do Veículo Lançador de Satélites (VLS), cuja marca é um incêndio sem explicação determinada que matou 21 especialistas no Centro de Lançamento de Alcântara, há dez anos.

O projeto foi aprovado em 1979, como parte de um ambicioso plano para que o Brasil ingressasse no seleto grupo de países que dominam a tecnologia de uso do espaço para fins pacíficos. O VLS daria ao Brasil o conhecimento necessário para posicionar equipamentos no espaço, a chamada tecnologia de controle de órbita. Sem isso, não há voo espacial para pôr satélites em funcionamento.

Porém, passados 34 anos, o Brasil já aplicou cerca de R$ 350 milhões no VLS e ainda não domina essa tecnologia. O orçamento claudicou e equipamentos deixaram de ser comprados ou ficaram obsoletos a ponto de perder a garantia operacional. O projeto passou a respirar por aparelhos.

- Considerando-se a pressão do mercado externo e a busca por resultados efetivos, é cada vez mais difícil a manutenção do projeto com recursos esparsos, os quais causam constantes atrasos e até retrocesso no desenvolvimento do veículo - admitiu o gerente do VLS-1 no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), coronel Alberto Walter da Silva Melo Júnior.

O cronograma indica que o VLS será acionado entre 2015 e 2016. Para tanto, será preciso planejamento contínuo. Caso contrário, o atraso continuará sendo a única certeza constante

Projeto mais caro é único que não agrega tecnologia

Plano de lançar veículo ucraniano de Alcântara deve custar R$ 1 bi

Enquanto a área espacial sofre com a falta de recursos e de pessoal - o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) estima em 400 o número de novos engenheiros necessários para desenvolver as atividades no setor -, o Brasil aprovou em maio a duplicação do capital da Alcântara Cyclone Space, empresa binacional criada em 2006 para lançar do Maranhão um foguete de fabricação ucraniana.

Porém, a missão, que já recebeu mais de R$ 400 milhões do Tesouro e aguarda para os próximos anos novas remessas que alcançarão o mesmo valor, não prevê nenhuma transferência tecnológica e é desacreditada no mercado aeroespacial. Detalhe: por falta de dinheiro, o Consórcio Camargo Corrêa/Odebrecht, que constrói o sítio de lançamento, parou a obra no primeiro semestre deste ano por causa de um dívida de US$ 30 milhões.

O governo passou dois anos negociando uma fórmula para "absorver" tecnologia de forma indireta dos ucranianos, por meio da cooperação na fabricação de componentes e na estruturação do Centro de Lançamento de Alcântara.

- Você põe os engenheiros para desenvolver esses projetos em conjunto. Essa é a chamada absorção de tecnologia, que é mais eficiente do que qualquer outra coisa - afirma o presidente da Agência Espacial Brasileira, José Raimundo Coelho.

A "absorção tecnológica" também vai nortear a escolha do fornecedor que construirá o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação (SGDC), aposta do Brasil para ter autonomia nas comunicações de Defesa, por meio da banda X, e concretizar o Plano Nacional de Banda Larga, por meio da banda Ka.

Coelho e o ministro Marco Antônio Raupp (Ciência e Tenologia) informam, no entanto, que no caso do SGDC as bases da colaboração já estarão previamente definidas. E o satélite de comunicações, orçado em R$ 700 milhões, também terá transferências de tecnologia, de empresa para empresa, o que não ocorre no caso do Cyclone 4, cujo lançamento estava previsto para 2010. Só depois deste voo, o mercado poderá saber se existe ou não um competidor para o lançamento comercial de satélites, a suposta razão de ser do foguete. 

'A NSA hoje pode praticamente entrar na mente das pessoas'

Olhos no mundo. Jornalista afirma que monitoramento de imenso volume de conversas não é a melhor maneira para conter ameaças terroristas

Autor, em 1982, do primeiro livro sobre a Agência de Segurança Nacional (NSA), ao qual seguiram-se outros três, o jornalista americano James Bamford diz que, em três décadas, as atribuições e a capacidade do maior aparato de espionagem do mundo cresceram tanto que a NSA é capaz hoje de "praticamente entrar na mente de alguém". Crítico desses superpoderes, ele aponta riscos no novo foco da agência, as guerras cibernéticas. Bamford não se surpreende com o monitoramento em massa das comunicações na América Latina. Diz que a vigilância começou nos anos 1960, com a interceptação de satélites, e, provavelmente, se ampliou a partir dos anos 1990, quando redes de cabos de fibra óptica passaram a dominar o fluxo global de informação.

O quanto a NSA é maior e mais poderosa 31 anos após seu primeiro livro?

A NSA cresceu enormemente, não só o tamanho físico, mas em particular em seu alcance e habilidade de capturar e vasculhar informação. Em 1982, sua atividade era basicamente escutar telefonemas fora dos EUA. Hoje, não só captura muito mais informação no mundo como o foco também está dentro dos EUA, interceptando, além de chamadas telefônicas, e-mails, dados, de Twitter a fax. E estas comunicações contêm imensa quantidade de informação privada. A NSA, hoje, pode praticamente entrar na mente de alguém monitorando o que você está digitando no Google, saber o que você está pensando.

A NSA pode monitorar, ver e ouvir tudo? Os EUA estão em todos os lugares?

A NSA só tem 35 mil funcionários, não pode ouvir tudo do mundo todo ao mesmo tempo. O que a NSA faz é colocar um filtro eletrônico ou computacional nos principais pontos de conexão da comunicação global e deixar os computadores decidirem o que capturar ou não. À medida que a comunicação passa por estes filtros, vai sendo capturada. Eles não ouvem e veem, mas têm capacidade para desviar esses dados. Os filtros são programados para responder a certas palavras, endereços de e-mails, números de telefone que são considerados suspeitos. Eles marcam o que querem, pode haver um nome ou milhões lá, ninguém sabe ao certo o quanto eles retiram deste fluxo global de informação.

O GLOBO revelou, a partir de material vazado por Edward Snowden, a existência de uma robusta operação de espionagem do Brasil e da América Latina, com reações furiosas dos governos. Estes países deveriam estar tão surpresos?

Na verdade, não. Eu não estou. Em 2008, escrevi sobre como a NSA espiona a América do Sul. Muita da comunicação internacional da região para os EUA e para a Europa, e para outros lugares a partir daí, passa por Miami, por um prédio, ao qual à NSA tem acesso, chamado NAP, National Access Point (Ponto de Acesso Nacional), operado por uma empresa privada.

Este monitoramento é feito há quanto tempo?

O foco doméstico da NSA começou a partir de 2001, após o 11 de Setembro. Não tenho certeza sobre o início das atividades na América do Sul, mas com certeza há mais tempo... provavelmente no fim dos anos 90, quando houve a mudança de comunicação. Porque desde os anos 60 a maior parte das comunicações internacionais era por satélite e a NSA as capturava, há uma imensa base para isso em Virgínia Ocidental. Mas no fim dos 90 os cabos de fibra óptica submarinos começaram a dominar o tráfego de comunicação. Todos os países têm esses cabos em volta e eles desembocam lá em Miami.

A NSA realmente tem acesso direto aos centros operacionais das empresas?

Sim. A NSA tem salas dentro das empresas. Lá em Miami tem. Em São Francisco, há um ponto de conexão operado pela AT&T em cujo prédio há uma sala secreta na qual a NSA mantém computadores. Todas as informações que chegam passam por um filtro que tem um software que cria dois "caminhos": um desce para os computadores na sala da NSA e outro segue adiante.

E esse sistema é legal?

É legal dentro dos EUA, mas não se aplica de jeito nenhum a ninguém na América do Sul. Com a mudança tecnológica, a NSA teve que arranjar formas de ter acesso aos cabos óticos, e por isso começou a trabalhar em acordos com as empresas de cabo e telefonia.

E, mesmo com todo este aparato, a NSA não detectou os planos de ataque em Boston. Como é possível?

Porque a NSA está colhendo informação demais, tanta que é impossível achar a agulha no palheiro. E o que a NSA faz hoje não tem nada a ver com a razão para a qual foi criada, que era antecipar quando a Rússia ia nos atacar. Não para achar terrorista ao redor do mundo. Está fazendo algo para a qual não foi desenhada e na qual não é muito boa. É muito difícil achar terrorista com uma chamada telefônica de alguém que você não sabe quem. Por isso grampeiam tudo. A NSA diz que dezenas de ameaças terroristas nos EUA foram abortadas devido ao seu aparato. Tenho minhas dúvidas. Provavelmente poderiam ter feito de forma mais eficiente do que a atual, bisbilhotando o telefone de todo mundo.

O senhor diz que o general Keith Alexander, diretor da NSA, é o mais poderoso chefe de Inteligência da História. Que perigo isso representa?

É muito perigoso. Ele é o chefe mais longevo da NSA, são nove anos, e é invisível para a maioria das pessoas. Agora, além de ele comandar a maior e mais secreta agência de inteligência do mundo, há uma adição à NSA, o Comando Cibernético dos EUA, que é capaz de lançar ciberguerras. Não só pode espionar, mas comanda uma organização que pode atacar e destruir sistemas de computadores e infraestrutura física de outros países. Nenhum outro país fez isso até hoje - só os EUA (interferência nas centrífugas nucleares do Irã). Como general, ele tem um exército próprio sob dele. É uma quantidade enorme de poder, e quase todo sob segredo.

Com este escândalo, o senhor acredita em alguma mudança na atividade de monitoramento dos EUA?

Não vejo nenhuma indicação disso. As coisas só pioraram depois da revelação dos grampos sem mandado (no governo de George W. Bush), as ações viraram lei.

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