segunda-feira, 15 de julho de 2013

Espionagem e informação privilegiada

Insight – Laboratório de Ideias – 15/07/2013

Nos últimos dias, o Brasil foi surpreendido pelas notícias sobre a amplitude da espionagem americana. Por elas, o cidadão comum ficou sabendo aquilo que alguns já sabiam e que muitos suspeitavam: os Estados Unidos possuem meios de interceptar, gravar e analisar qualquer tipo de informação que transite pela esmagadora maioria das redes de fibra ótica e satelitais pelas quais fluem as comunicações brasileiras.

De imediato, os cidadãos tupiniquins se indignaram, por saber que seus e-mails e conversas telefônicas poderiam estar sendo grampeados, em flagrante e ilegal invasão de privacidade. De igual forma, as áreas responsáveis pela segurança nacional e diversos outros órgãos do governo que tratam com informações confidenciais e vitais à soberania do País também estão levantando sua voz contra o despropósito. CPIs estão sendo propostas no Congresso. Ministros e outras autoridades ocupam os espaços da mídia com declarações nacionalistas e oferta de soluções de todo o tipo. Enfim, quase que o País inteiro está esperneando contra a invasão criminosa e não declarada de suas comunicações pessoais, empresariais e governamentais.


Também pudera! Todos os satélites que servem às comunicações brasileiras são operados por empresas estrangeiras. Os seis principais cabos submarinos internacionais utilizados pelo Brasil são gerenciados por consórcios estrangeiros, sendo que cinco são subordinados aos Estados Unidos. Em síntese: todas as nossas comunicações estão nas mãos de estrangeiros, sejam eles americanos ou europeus. Mas Carlos Slim não é mexicano? Sim, é mexicano, mas uma parte de suas empresas de comunicações opera desde os Estados Unidos, o que a faz submeter-se também às leis americanas que permitem a bisbilhotagem.

Não, os americanos não são os únicos vilões. Chineses, russos, japoneses, coreanos, europeus e outros também fazem a mesma coisa, dentro de suas possibilidades e conveniências. Aliás, os chineses são os campeões da espionagem empresarial no mundo! No entanto, no caso brasileiro, nossos sistemas de comunicações, após as privatizações da Telebras e da Embratel, ficaram completamente subordinados aos estrangeiros, pois lhes entregamos as operadoras de telecomunicações e, principalmente, os satélites da Star One e os principais cabos submarinos em que participávamos (Americas I e II, Atlantis 2 e Unisur).

Principais Cabos Submarinos com presença no Brasil (Teleco)

Voltando às repercussões em terras nacionais, têm-se a impressão (verdadeira) que nem todos estão na mídia reclamando. Alguém já viu ou ouviu o presidente de uma grande empresa brasileira reclamando que pode estar sendo vítima de espionagem empresarial? A resposta é simples: este segmento dificilmente irá divulgar que seus segredos estão em risco. Se o fizer, estará evidenciando fragilidade aos investidores, clientes e concorrentes, e isso seria péssimo para seus negócios. Porém, internamente, a maioria está preocupadíssima e acionando seus departamentos de TI para reforçar a blindagem de suas informações confidenciais... como se isso fosse possível no atual cenário!

Por fim, um último questionamento: e o Mercado de Valores e de Commodities? Sim, pois se os gringos podem interceptar, gravar e analisar qualquer tipo de comunicação via fibra ótica ou satélite, nossos mercados estão sujeitos à mais sofisticada e dissimulada forma de obtenção de informação privilegiada jamais levada a efeito anteriormente. Por aí talvez se entendam alguns grandes negócios brasileiros que foram perdidos de maneira “inexplicável” no mercado internacional, ou mesmo a entrada e saída de estrangeiros na bolsa de valores ou de mercadorias, também de maneira “incompreensível” para os investidores tupiniquins. Aliás, nesse último quesito, um dos termômetros desses mercados é exatamente a entrada ou saída de estrangeiros, obrigando os nacionais a segui-los para não "ir contra a maré" e perder dinheiro. No mínimo, mais um fato a investigar.

Ideologias à parte, a privatização da Telebras e da Embratel, ao passar o controle de todas as comunicações nacionais para os estrangeiros, trouxe-nos um problema gigantesco, cujas consequências danosas só agora estão sendo percebidas. Uma delas é que boa parte dos bilhões recebidos e já gastos (onde, mesmo?) com essas privatizações tenha que ser agora novamente investida no setor.

Entre as soluções, a mais importante foi vislumbrada pelo engenheiro gaúcho Rogério Santanna dos Santos, que, como Secretário de Logística e Tecnologia da Informação, desde o início do primeiro governo de Lula já pregava a reativação da Telebras como forma de proteger as informações confidenciais do País em todas as áreas estratégicas. Vários anos depois, com o auxílio do economista gaúcho Cezar Santos Alvarez, Santanna foi ouvido e a empresa foi reativada em 2010, não só com este fim, mas também com o de proporcionar a inclusão digital de todos os brasileiros.

Hoje, apesar de todos os percalços enfrentados pela pressão contrária das empresas internacionais de comunicações e pela oposição política, os 25.000 quilômetros de rede exclusiva da Telebras se transformaram na única via por onde podem transitar, com maior segurança, as informações sigilosas e estratégicas do setor governamental e dos meios empresarial e científico brasileiros.



 Cobertura nacional com rede terrestre e satelital da Telebras


O País ainda continua sem satélites e cabos submarinos. No entanto, a Telebras já está em pleno processo para a construção do primeiro satélite geoestacionário nacional e para a implantação de até três cabos submarinos próprios, ligando o Brasil aos Estados Unidos, Europa e África. Além disso, está sendo concretizada a instalação de um inédito Ponto de Troca de Tráfego (PTT) Internacional em Fortaleza (centro de dados em que todas as “estradas” da internet se encontram) e de um grande anel ótico sul-americano, que prescindirá da base (e da bisbilhotagem) norte-americana para as comunicações continentais.

Ao fim e ao cabo (com perdão do trocadilho), ou o Brasil (e não apenas o governo) acorda agora para a Telebras e lhe destina todos os meios políticos, financeiros e humanos de que necessita para cumprir sua estratégica função, ou continuaremos, passivamente, sendo o mesmo país terceiro-mundista que tem seus segredos governamentais, empresariais e mercadológicos espionados e espoliados pelos Estados Unidos e por outros países detentores da alta tecnologia e do controle das grandes vias de comunicações.

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