sábado, 28 de abril de 2012

À espera do 4G

 Zero Hora - 29/04/2012

Leilão de licenças de novo serviço de telefonia celular ampliará possibilidades da internet móvel

Nas próximas semanas, o Brasil avançarão na implantação da tecnologia de redes de quarta geração. O leilão do dia 12 de junho distribuirá lotes da faixa de frequência de 2,5 Ghz e deve arrecadar no mínimo R$ 3,85 bilhões.

As redes 4G permitem que celulares e tablets se conectem à internet a uma velocidade até 10 vezes maior do que uma conexão 3G. As capitais que receberão a Copa das Confederações terão o sistema em funcionamento até dezembro de 2013. Porto Alegre deverá ter o serviço ativo até a Copa do Mundo.

A tecnologia amplia as possibilidades para a internet móvel. Será possível assistir a filmes, baixar músicas e fazer videochamadas. A conexão funcionará em veículos em movimento e alcançará pontos hoje inacessíveis. Também ajudará a descongestionar o tráfego de dados.

– Essa tecnologia não vai substituir o 3G. Como hoje, existe o GSM (2G) que é combinado com a tecnologia 3G. Se o usuário precisa de um serviço de vídeo, vai ser direcionado para a rede LTE. Se é algo simples, que não demanda tanta velocidade, poderá usar uma rede mais antiga – diz Maurício Higa, gerente de marketing para redes móveis da Huawei.

A implantação do sistema terá custos para as empresas, que precisarão construir a estrutura para o 4G e manter a expansão do 3G.

– É tecnologia completamente nova. Vai ser preciso construir mais torres, instalar mais antenas – ressalta Erasmo Rojas, diretor da 4G Américas para América Latina e Caribe.


Conexão 3G ainda tem tropeços

Redes móveis enfrentam problemas como capacidade insuficiente em grandes centros urbanos e pouco alcance em cidades menores

A proposta das redes móveis é tirar o internauta da cadeira e deixá-lo conectado ao mundo digital 24 horas por dia em qualquer lugar. Mas a ideia só é cumprida parcialmente no Brasil. Por enquanto, a cobertura chega apenas aos centros urbanos, com qualidade que varia conforme o bairro, a concentração de pessoas, a presença de prédios e morros no entorno e a operadora contratada.

No ano passado, só no Procon de Porto Alegre foram registradas 300 queixas contra o serviço. A maioria se referia a dois problemas: a promessa de conexão ilimitada – mas com cobrança de excedente caso o usuário baixe mais dados do que o plano permite – e o serviço que não funciona fora da cidade onde foi adquirido.

Foi o que ocorreu com o professor Eduardo Cortez. Morador da Capital, ele relata que a conexão funcionava muito mal no Litoral Norte nos meses de verão tanto no notebook quanto no celular.

– Em Atlântida, o modem 3G, com muita sorte, eu conseguia conectar às 6h ou 7h da manhã. No smart- phone, a rede caía toda hora – relata o professor.

Quem costuma viajar precisa estudar o mapa de cobertura de cada empresa antes de adquirir o serviço para não ser surpreendido com a falta de sinal. No Rio Grande do Sul, a operadora que tem a cobertura mais ampla é a Vivo, presente em 358 municípios. A Claro está em 131, e a Oi, em 45. A Tim é a operadora com menor cobertura 3G: 20 municípios.

– Temos previsão de levar a rede 3G a 40 cidades até o fim do ano. Mas a maioria dos municípios opera na rede 2G, que é suficiente para acessar o plano de dados Infinity pré – explica Christian Krieger, diretor da TIM no Rio Grande do Sul.

Outro problema é a grande concentração de pessoas em uma pequena área. É o caso de eventos esportivos, shows e até do aumento da população do litoral durante o verão. Cada antena tem uma capacidade máxima de tráfego de dados. Em alguns casos, os usuários são direcionados a uma “estrada secundária” – a rede 2G.

Por isso, as operadoras são constantemente desafiadas a aumentar sua estrutura. O número de acessos por banda larga móvel no país cresceu 99,3% em 2011, chegando a 41 milhões de conexões.

– Para a colocação de mais estações, existe um complicador que é a legislação ambiental. E Porto Alegre tem uma das mais rígidas do mundo – diz Mauricio Perucci, diretor da Claro para o RS.


Metas de qualidade serão exigidas a partir de outubro

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) começará a fiscalizar nos próximos meses a qualidade dos serviços prestados. A Pricewaterhouse Coopers irá aferir a qualidade do serviço. Enquanto os dados sobre as redes 3G não estão disponíveis, Vanderlei Rigatieri, diretor-geral da WDC, decidiu conferir a situação das redes 3G por conta própria. Equipada com tablet, notebook e smartphone, a expedição WDC percorre o Brasil testando a conexão das quatro principais operadoras. No Rio Grande do Sul, visitou 17 cidades. Encontrou situações muito distintas.

– Se for traçar uma média, o Estado é bem servido. Mas, ao sul de Rio Grande, é muito ruim. Nos arredores de Santa Vitória do Palmar, está tão ruim como o Mato Grosso, pior lugar que encontramos até hoje. A melhor situação é em Caxias do Sul, com conexões de até 4 Mbits porsegundo – aponta Rigatieri.


Na Fronteira Oeste, o sinal também é precário.

– Dirigimos por horas nas estradas sem sinal ou navegando a velocidade muito baixa – conta Rigatieri.

A Vivo afirma que, apesar de a cobertura ser obrigatória apenas no perímetro urbano, o sinal da operadora frequentemente chega até as rodovias:

– Depende da topografia do município. Se não há barreiras naturais, o sinal chega mais longe – afirma Clenir Wengenowicz, diretora da regional sul da Vivo.

A partir de outubro, as operadoras terão de atender a exigências mínimas de velocidade e cobertura, sob risco de multas. Hoje, cada empresa é obrigada a cumprir apenas o que está em contrato, o que permite entregar apenas 10% da velocidade contratada.

– Se o serviço contratado não está sendo prestado ou não for satisfatório, é possível até retirar a cláusula de fidelidade. O primeiro passo é procurar a operadora para tentar acordo – diz Flavia do Canto Pereira, diretora do Procon da Capital.


Na Serra, sinal dependente do bairro

Apesar de ser considerada uma cidade bem servida por sinal 3G, Caxias do Sul não é coberta de forma igual por todas as operadoras. Ligada ao mundo virtual móvel durante todo o dia com tablet, notebook e smartphone, a empresária Liliane Trentin (foto) precisou pesquisar qual operadora lhe ofereceria maior cobertura depois de ter problemas de conexão.

O que provocou a mudança de plano foram as falhas da antiga operadora, com sinal 3G fraco e inconstante. A procura foi por uma internet mais rápida e que, principalmente, mantivesse o sinal com boa qualidade em diferentes pontos da cidade.

– Circulo por três bairros bem distantes e fico conectada praticamente o tempo todo – diz a empresária do ramo gastronômico, agora satisfeita com o serviço.

O buraco na cobertura de algumas operadoras em Caxias é o que ainda gera reclamação dos usuários e cancelamentos. Assim como Liliane, a engenheira química Renata de Carvalho Teles deixou de se conectar com um modem 3G por considerar a conexão péssima.


No Extremo Sul, isolamento digital

A aposentada Tereza Graneiro, 53 anos, adquiriu um modem 3G há mais de dois anos. Com a promessa de melhoria no serviço, apostou na placa para se comunicar com o filho, que mora na Europa. A surpresa foi o equipamento nunca ter funcionado. Foi então que Tereza se viu diante de dois problemas: falta de conexão e o cumprimento do prazo de um ano com o cadastro de fidelidade.

– Me vi obrigada a entrar na Justiça. Troquei um serviço de R$ 40 por um de R$ 120 que não funcionava e não conseguia me ver livre dele. Depois de quatro meses, fui indenizada – lembra Tereza.

Em Santa Vitória do Palmar, no extremo sul do Estado, a conexão é considerada tão ruim que até uma audiência pública foi realizada para discutir o tema. A iniciativa foi da vereadora Maria do Rosário, também proprietária de dois hotéis na cidade – que, em razão dos problemas, não oferece serviço de internet para os hóspedes. Cada um dos moradores que têm placa 3G em casa se comprometeu a criar um arquivo com informações diárias da velocidade da internet registrada no computador. A ideia é reunir documentos para dar início a uma ação judicial coletiva.

– Enviamos convite aos representantes de todas as operadoras, para que viessem na audiência, mas nenhum compareceu. Buscamos respostas e a única que tivemos foi a de que a nossa rede precisa de reparos e que não há projetos previstos, pelo menos, até 2014 – indigna-se Maria do Rosário.

Um abaixo-assinado com mais de 2 mil assinaturas será anexado aos documentos dos consumidores que adquiriram a placa 3G. A conexão não funciona nas praias do Hermenegildo e Barra do Chuí e, na cidade, durante o horário comercial também há problemas.

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