domingo, 4 de março de 2012

Internet em casa reduz número de LAN houses no país

Com aumento nos acessos domiciliar e móvel, 30 mil estabelecimentos fecham as portas em 2011, estima Sebrae

Entidade propõe mudança de modelo de negócios para dar sobrevida aos empreendimentos

Folha de São Paulo - 04/03/2012

As LAN houses, que respondiam pela maioria dos acessos à internet no Brasil até três anos atrás, estão mais raras. O Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) estima que o número de unidades tenha caído de 130 mil em 2010 para 100 mil em 2011 (-23%).

João Maria de Oliveira, pesquisador de Políticas Setoriais de Inovação do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), defende não desperdiçar a estrutura e a experiência acumuladas.

"Fala-se tanto em estimular o pequeno empreendedor", diz Oliveira. "A LAN house é um espaço de empreendedorismo marcante no país. Entraram no espaço vazio, cumprindo papel fundamental na inclusão digital."

O acesso nos domicílios que superou as LAN houses em 2009, segundo o CGI (Comitê Gestor da Internet)- e nos aparelhos móveis, entre outros fatores, abriu uma corrida para desenvolver novo modelo de negócios.

"Como inicialmente concebido, o modelo talvez deixe de existir", afirma Juliano Cappi, do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação do CGI. "Não podem mais ser um lugar só de acesso à internet, mas um ponto que ofereça serviços, outros tipos de atividade."

O Sebrae é uma das organizações que buscam saídas para as LAN houses.

"O setor passa por consolidação", diz o diretor técnico do Sebrae, Carlos Alberto dos Santos. "O serviço tinha demanda pela falta de acesso. Já ocorreu em outros países: à medida que aumenta o número de computadores nos lares e o acesso, o serviço deixa de ter importância."

No Brasil, segundo estudo da FGV, a quantidade de computadores deve chegar a 98 milhões neste ano. Em 2005, eram 30 milhões. O aumento é creditado à elevação na renda e à queda no preço.

A banda larga vem crescendo "num ritmo lento", diz Oliveira, do Ipea. Ele relata que caiu o preço que "as grandes operadoras cobram dos pequenos provedores, o que repercute positivamente", e diz aguardar o efeito das mudanças de legislação que buscam estimular a concorrência.

"A gente ainda tem uma concentração muito grande", diz, citando dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) que mostram que 81,3% das cidades enfrentam monopólios (a operadora domina mais de 80% do mercado de banda larga).

RISCO

Se crescer a concorrência, como esperado, deve se acelerar ainda mais a consolidação de LAN houses. "Qualquer movimento pode fazer essas empresas quebrar", avisa Cappi, do CGI. "São negócios familiares 80%, declaram ter até três funcionários 97% e metade é informal."

Cappi defende priorizar a capacitação dos donos das LAN houses, "para que um gestor possa pensar no seu negócio, gerir sua empresa" e assim "repensar o modelo".

Santos diz que o Sebrae faz esse trabalho. O projeto Raio Brasil (Rede de Atendimento, Informação e Orientação) é "voltado aos gestores" e já atinge 2.500 LAN houses; o Desafio LAN Sebrae, que associa as LAN houses "como um pequeno ponto de atendimento do Sebrae", apoia a formalização e oferece serviços como ensino a distância.

Segundo a CDI Lan, empresa que dá suporte a 6.500 LAN houses em periferias e cidades do interior, mais de 50% da receita desses locais já vêm de serviços como cadastro de currículos e pagamento de contas. O faturamento médio de uma LAN house popular é de R$ 3.000 por mês.

"Há cinco anos, a conexão à internet era a fonte de receita", diz Bernardo Faria, diretor-presidente da CDI Lan. "Em cinco anos, terão virado centros de conveniência."

Faria diz que, na periferia, a falta de segurança é fator limitador do desenvolvimento, "quanto à possibilidade de se tornar correspondente bancário" para pagamento de contas. "Esse receio não existe nas cidades do interior."

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