sábado, 10 de março de 2012

Brasil quer integrar internet com países sul-americanos

Anel óptico busca interligar banda larga entre vizinhos e deixar conexão mais veloz

46% do tráfego de dados vem de fora do país, 90% deste com parada nos EUA; valor mínimo é de US$ 100 mi

Folha de São Paulo - 09/03/2012

Os ministros de Comunicação dos membros da Unasul (União de Nações Sul-Americanas) devem ratificar hoje em reunião em Assunção, no Paraguai, o plano de trabalho para integrar as redes de banda larga da internet entre os vizinhos, por meio de um anel óptico.

Em conjunto com o Plano Nacional de Banda Larga, o anel óptico "aumentará a capacidade e barateará o custo das conexões", afirmou a presidente Dilma Rousseff, na abertura da feira de tecnologia CeBIT, em Hannover, na Alemanha.

Outra iniciativa citada por Dilma para ampliar a infraestrutura tecnológica é a contratação da construção de cabos submarinos ainda neste ano para ligar o país aos EUA, à Europa e à África. Eles levam dados de internet do Brasil para outros países.

Hoje é necessário cruzar o oceano Atlântico para acessar do Brasil sites hospedados em países como Colômbia e Equador. A informação ruma aos EUA, por meio de um cabo submarino, e depois retorna, por outro cabo, pelo oceano Pacífico. No caso do Peru, o trajeto tem mais de 8.000 km. Com o anel, a distância cairia para 2.000 km.

Quando estiver funcionando, o anel óptico permitirá que o tráfego de informação não precise sair da América do Sul para circular entre os países. Mais de 46% do tráfego de dados vai para fora do país. Desses, quase 90% fazem um pitstop nos EUA. A velocidade nesses casos aumentará de 20% a 30%, afirma Artur Coimbra, diretor de banda larga do Ministério das Comunicações.

CONEXÃO

A implantação do projeto é dividida em três etapas. Na primeira, os pontos físicos de banda larga localizados nas fronteiras serão conectados para que a informação tenha um canal para passar de um país a outro.

De acordo com o Ministério das Comunicações, as ligações físicas com Argentina, Paraguai, Venezuela, Bolívia e Uruguai poderão ser feitas já neste ano.

A segunda etapa será protagonizada pelas empresas nacionais de telecomunicações dos países. Estatais onde houver, como no Brasil (Telebrás) e Argentina (Arsat); privadas nos outros.

Elas firmarão acordos com as empresas dos países fronteiriços. A ideia é que forneçam um tipo de autorização para que as companhias vizinhas consigam "enxergar" as redes internas de fibra ótica, os "backbones", complementando assim a conexão física da primeira etapa. Sem a conexão lógica do anel, a informação não circula.

Com prazo fixado em 2014, a terceira fase será construir redes até as fronteiras em que não há pontos de conexão. Até o Peru, por exemplo, serão necessários 250 km de malha. Bolívia e Guiana são os outros países da lista.

O valor mínimo estimado para o anel é de US$ 100 milhões. "Se decidirem aumentar as conexões com os países, o valor pode aumentar", afirma Coimbra. O BNDES deve oferecer linhas de crédito.

O plano prevê ainda a entrada das teles no anel por meio de pontos de troca de tráfego. Os países sul-americanos poderão também se beneficiar dos cabos submarinos brasileiros para se conectar à Europa. Mas isso dependerá de acordos futuros.

Anel óptico dará à internet brasileira mais autonomia

Atualmente, 90% do tráfego de saída internacional do país passa pelos EUA

*ROGÉRIO SANTANNA - ESPECIAL PARA A FOLHA

Se analisarmos o perfil do tráfego de saída internacional demandado pela internet no Brasil, veremos que 90% dele sairá pelos EUA. Isso quer dizer que, se estivermos acessando um portal na Europa, estamos passando por Miami para chegarmos lá. Para piorar as coisas, 35% do tráfego interno no Brasil é roteado por lá.

Essa excessiva fragilidade pode nos deixar sem comunicação via internet se algum incidente na rede ocorrer nesse trecho.

Daí a importância de aproveitarmos a construção de outras infraestruturas -tais como estradas, ferrovias e redes de transmissão de energia elétrica- para desenvolvermos infovias que possam assegurar autonomia nas comunicações entre os países latino-americanos.

É preciso também investir no lançamento de cabos submarinos que nos liguem diretamente à Europa e à África. E, além disso, providenciarmos novas rotas de chegada à Ásia.

O anel óptico proposto pelo Brasil vem ao encontro dessa preocupação de natureza estratégica com uma maior autonomia nas comunicações. Permite também maior segurança nas comunicações entre os países da região, evitando que esse tráfego passe por onde não é preciso.

Os usuários podem se beneficiar com um aumento da redundância de trajeto, da velocidade e da qualidade nos seus acessos de internet.

Mais oferta de saída internacional também ajudará a baixar o preço, reduzindo o preço do megabit transportado, e isso pode permitir preços melhores para o usuário final do serviço.

Resumindo, quanto mais ofertas de saída internacional e mais variados forem os caminhos, mais barato, de melhor qualidade e mais seguro será o acesso para o usuário da internet no Brasil.

*ROGÉRIO SANTANNA, 54, engenheiro mecânico especialista em gerência em engenharia de software pela UFRGS, é ex-presidente da Telebrás.

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