sábado, 8 de outubro de 2011

Projeto complexo e múltiplos interesses são desafios do satélite geoestacionário brasileiro

Teletime - 07/10/2011

O projeto do Satélite Geoestacionário Brasileiro ainda está envolto em uma grande quantidade de sigilo e pouco se pode dizer com segurança sobre a formatação final do programa. Dependendo do interlocutor, a informação que se tem é que ou o projeto está em fase bastante adiantada, ou ainda bastante incompleto. Não há certeza sequer se o primeiro satélite, previsto para 2014 (mas que tem como data mais realista, livre de pressões políticas, 2016) será apenas um, pois é real a possibilidade de que sejam dois satélites menores.

O que adiciona uma grande quantidade de complexidade ao projeto é a característica híbrida do projeto, que se destina tanto ao uso militar, com a banda X, quanto à aplicação civil de atender ao Plano Nacional de Banda Larga.

Da parte militar o que se sabe, segundo informações que foram passadas pelo general Celso José Tiago, do Ministério da Defesa, durante apresentação no Congresso Latino-americano de Satélites, realizado pela Converge Comunicações e pela TELETIME nesta sexta, 7, é que o projeto visa atender ao Plano Nacional de Defesa e à Estratégia Nacional de Defesa, instituídos pelo governo em 2009 e que é naturalmente complexo por envolver o monitoramento de uma gigantesca área de fronteira que cobre 27% do território nacional (como comparação, isso é o dobro da área de fronteira dos EUA), a Amazônia, o espaço aéreo brasileiro e, sobretudo, as fronteiras marítimas. Ou seja, o satélite terá que atender a complexos planos de monitoramento e defesa que envolvem Exército, Marinha e Aeronática.

Segundo o general Tiago, a formatação dos planos e necessidades do Exército já está mais adiantada, mas ainda falta finalizar os planos da Aeronáutica e Marinha. Tudo isso passará ainda pelo acompanhamento da Agência Espacial Brasileira (AEB), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, e deve envolver necessariamente o total controle operacional e tecnológico por parte de brasileiros, a transferência de tecnologias a empresas brasileiras e ainda se enquadrar em um projeto maior que envolve satélites menores de monitoramento e vigilância, localização e ainda atender à capacidade de comunicação que cubra as missões brasileiras no exterior, incluindo regiões como Mediterrâneo e Oriente Médio.

Segundo o coronel Marcelo Franchitto, do Instituto de Aeronáutica e Espaço, que também participou dos debates, toda essa capacidade precisa estar disponível de forma integrada, o que adiciona um componente de dificuldade adicional.

Backhaul

Da parte de telecomunicações civil para atender o PNBL, o que se sabe é que será um satélite em banda ka destinado basicamente a backhaul para acesso banda larga. Esse propósito simplifica um pouco o projeto, pois não há a necessidade de projetar o satélite com muitas células, já que ele não se destinaria ao atendimento do consumidor final. Isso torna o satélite mais leve e barato, mas de qualquer maneira a operação em banda ka tem desafios adicionais em relação à atenuação atmosférica, o que é algo crítico em regiões como a Amazônica, onde estão boa parte das cidades em que o Plano Nacional de Banda Larga não conseguirá chegar por meio de fibra óptica.

A questão da posição orbital também é crítica, pois disso depende uma cobertura mais ou menos eficiente da fronteira marítima. Hoje, fala-se no mercado que o primeiro satélite geoestacionário brasileiro poderia ocupar ou a posição 48W ou a posição 75W, mas outras estão também sendo avaliada. Se o satélite fosse apenas destinado à defesa, certamente não haveria questionamento em relação à consignação gratuita desta posição, mas algumas empresas privadas questionam como a Anatel tratará a questão considerando a participação da Telebrás no projeto.

Segundo dados da Agência Espacial Brasileira, este primeiro satélite de comunicação a ser lançado até 2014 será de porte superior a 2 toneladas, o que é um pouco acima da capacidade do foguete lançador Cyclone 4, que está sendo projetado e construído pela Alcântara Cyclone Space, empresa bi-nacional Brasil/Ucrânia. O Cyclone 4 tem capacidade para satélites de até 1,7 toneladas. Mas segundo Sergiy Guchenkov, diretor da bi-nacional, com o orçamento previsto pelo Brasil (cerca de R$ 710 milhões), é possível construir dois satélites menores que atenderão perfeitamente a capacidade militar e civil do SGB e que ainda poderiam ser lançados no Cyclone 4, o que garantiria ao Brasil a possibilidade de absorver plenamente inclusive a tecnologia de lançamento e asseguraria um backup caso seja necessário.

Transferência tecnológica

O desafio de transferência de tecnologia é um dos grandes problemas do projeto do Satélite Geoestacionário Brasileiro. Ao mesmo tempo em que as Forças Armadas colocam a necessidade de transferência desta tecnologia para empresas nacionais como uma parte fundamental do projeto, é uma posição praticamente consensual de que para o primeiro satélite, a ser lançado em 2014, terá muito pouco de sua tecnologia transferida para o Brasil, mas há ainda a expectativa de que pelo menos parte dela seja absorvida pelo integrador nacional, diz o General Tiago.

Laurent Mourre, gerente geral da Thales para o Brasil, a transferência de tecnologia é sempre uma questão que passa por um aspecto político de quem detém a tecnologia, uma questão orçamentária, uma componente de tempo e a capacidade de absorção de quem contrata. A Thales é uma empresa francesa que construiu boa parte dos satélites geoestacionários em operação hoje. Segundo Mourre, da parte do governo francês, não existe nenhuma restrição para que a tecnologia francesa seja transferida ao Brasil. "Isso está claro no projeto do submarino nuclear ou na venda dos caças para a Aeronáutica" , mas ele ressalta que a componente de tempo é complicada para que haja transferência de tecnologia já nesse primeiro satélite geoestacionário a ser lançado em 2014.

Tudo isso passará pela empresa integradora, que será a responsável pela contratação das diferentes partes e acompanhará a montagem e os testes com o satélite. Especula-se que a Embraer seja a empresa mais próxima de assumir o papel de integradora, mas não há consenso dentro do governo sobre isso (o nome da empresa não foi citado nos debates). A outra opção seria a Mectron, ligada ao grupo Odebrecht e que já hoje desenvolve equipamentos de defesa como mísseis e foguetes militares, mas essa opção é considerada mais adequada para integrar satélites menores para outros propósitos.

Anatel pode licitar novas posições ainda em 2012

A Anatel estima que no próximo ano já será possível realizar uma nova licitação para posições orbitais brasileiras. Para a agência, o sucesso das últimas licitações, sobretudo na licitação realizada este ano, mostra que o mercado está aquecido e que precisa de mais capacidade satelital. Segundo João Carlos Albernaz, gerente geral de satélites da Anatel, que falou nesta sexta, 7, no Congresso Latino-americano de Satélites, organizado pela Converge Comunicações e pela TELETIME, a disposição da agência é começar a trabalhar no próximo edital tão logo a mais recente licitação, de setembro, esteja concluída. "Acredito que as próximas licitações virão mais rapidamente porque o modelo está bem consolidado", disse. Em relação aos preços que seriam cobrados, ele acredita que mesmo com elevados ágios pagos na última licitação, que arrecadou 1.500% além dos preços mínimos, a área técnica da Anatel proporá manter as regras e valores atuais. "Mas isso é algo que ainda depende do TCU e do Conselho Diretor da agência", disse.

Crescimento astronômico

Ele fez também um balanço do processo de aberturado mercado de satélites no Brasil, e lembrou que se em 1998 havia quatro satélites brasileiros e quatro estrangeiros operando no Brasil, hoje são oito nacionais e 32 estrangeiros, ressaltando que nacionais são aqueles com posição orbital brasileira e operados a partir do território nacional.

Essa expansão trouxe ainda um salto de mais de quatro vezes na capacidade instalada, contando apenas os satélites nacionais. Em 1998, a capacidade era de 5.022 MHz e em 2011, com a licitação realizada, foi a 22.506 MHz, fora mais 2.500 MHz em banda Ka. Hoje a capacidade brasileira é de 42,9% da disponível para operação no Brasil.

Albernaz destacou que o processo de licitação de posições orbitais brasileiras é fundamental para que o Brasil mantenha junto à UIT o controle sobre estas posições, e um primeiro passo para que o País tenha capacidade tecnológica. "Se quisermos ter uma capacidade tecnológica, precisamos dar um passo de cada vez, começando com satélites menores", disse, ao comentar as expectativas sobre o programa de satélites brasileiros.

Interferências

Ele lembrou ainda que recentemente apareceu o problema da interferência com as recepções de banda C e suas estações terrenas com as transmissões de WiMAX na faixa de 3,5 GHz. "O problema existe e precisamos buscar as soluções. Há um esforço das empresas nesse sentido e isso é muito importante", disse, referindo-se ao estudo da Abrasat sobre o tema.

Ele lembrou que a banda Ku também sofre com rádios de ligação entre ERBs que operam na faixa de 11 GHz. "Já na banda Ka, ainda não apareceram problemas identificados, mas isso deve acontecer, porque boa parte do espectro de descida é compartilhado com serviços em terra", alertou Albernaz. Ele disse que a Anatel e o mercado têm que se esforçar para encontrar soluções para esses problemas de interferência, pois se de um lado existe uma crescente demanda por espectro móvel, por outro também é crescente a necessidade de capacidade de satélites.

Hughes Networks diz que seu business plan inclui oferta de banda larga por satélite

A última licitação de satélites realizada pela Anatel trouxe como grande novidade uma oferta de cerca de US$ 90 milhões feita pela Hughes Networks por uma única posição orbital em 45W. A explicação para este lance, disse Délio Morais, presidente da empresa no Brasil, torna-se simples quando se observa as possibilidades do satélite que está sendo planejado. A Hughes, provavelmente, vai entrar na oferta direta ao consumidor de serviços de banda larga, admite o executivo. "Parte da nossa charada foi desvendada. Meu business não é apenas para a oferta de capacidade satelital. A Hughes já foi, no passado, uma empresa desse mesmo tipo que apenas vende capacidade. Mas hoje, os satélites que temos são para o nosso uso", diz Délio Morais, lembrando que inclusive um satélite com capacidade de 100 Gbps que será lançado pela Hughes para o mercado norte-americano será inteiramente utilizado pela empresa na oferta de serviços ao consumidor. Ele evitou, contudo, dar qualquer detalhe sobre a capacidade do satélite brasileiro alegando que essa informação ainda é parte do processo de licitação, que não está concluída. Em fato relevante publicado um dia após à vitória, a Hughes disse apenas que o satélite teria banda Ka.

Morais não comentou (e também não desmentiu) a possibilidade de uso do satélite da Hughes para uso em um DTH próprio no Brasil. A Hughes é controlada pela Echostar, que por sua vez tem o magnada Charles Ergen como controlador. Ergen também é acionista controlador da Dish, principal competidora em DTH da DirecTV nos EUA. "Banda Ka é o nome do jogo. O drive é que agora há uma maneira rentável e efetiva de atender ao mercado consumidor pessoa física", disse.

Délio Morais também disse que outros fatores contribuíram para os lances dados pela Hughes no leilão, como a concorrência agressiva com a Sky e o interesse da StarOne pelas mesmas posições. "Precismaos lembrar que havia sete empresas preparadas para disputar as posições orbitais e que não havia margem para o terceiro colocado", disse, referindo-se ao sistema da licitação em que o terceiro colocado não tinha a chance de entrar no repique de preços.

Délio Morais participou, ao lado de outros executivos da indústria, do Seminário Latino-Americano de Satélites, realizado nesta sexta, 7 no Rio de Janeiro. O seminário teve a organização da TELETIME e da Converge Comunicações.

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