sábado, 8 de outubro de 2011

Conexão entre o campo e a rede

Projeto em fazenda de Cachoeira do Sul ensina trabalhadores, familiares e vizinhos da propriedade a usarem o computador

Zero Hora - 09/10/2011

Pela estrada de chão batido, Rosimeri da Silva, 35 anos, percorre oito quilômetros de carroça todas as quintas-feiras para participar de aulas de informática na Fazenda Irapuá, em Cachoeira do Sul.

Carrega com ela as filhas Dânara, 14 anos, e Vanessa, oito anos, e estaciona perto da cerca da Escola de Informática Luiz e Lísia Amin.

É ali que o trio aprende a lidar com o computador – das lides do campo Rosimeri já é uma mestre. Digitar um texto, trocar as cores das fontes, navegar na internet e copiar a foto de um site agora são tarefas simples como cuidar da horta ou fazer pão. Mas já foram um desafio para a agricultura e dona de casa. Antes da inauguração da escola, ela e muitos de seus 39 colegas nunca tinham tocado em um mouse.

– As crianças têm aula de informática na escola, mas e a gente, mais velha? Com 35 anos, eu nunca tinha chegado perto de computador – conta, enquanto edita o título do seu exercício usando o editor de textos.

Conexão até a escola é por fibra óptica
A oportunidade surgiu quando o dono da fazenda, Willy Haas Filho, executivo da Rede Globo (diretor-geral de Comercialização) nascido em Cachoeira, criou o projeto de inclusão digital e abriu a escola, gratuita, para trabalhadores, familiares e moradores das redondezas.

– Um amigo fez algo semelhante em sua fazenda de café, em Minas Gerais, e assim surgiu a ideia. Ele atende só crianças. Eu achei importante expandir para os adultos – relembra Willy, que começou a investir na pecuária há 15 anos, arrendando terras em São Sepé, até que, em 2000, comprou uma propriedade em Cachoeira do Sul, onde cria touros e matrizes das raças hereford e braford.

Para tirar o projeto do papel, foram necessários a construção da casa que abriga a sala de aula e a instalação de cerca de 30 quilômetros de cabos de fibra óptica que levam a internet da cidade até a fazenda. A solução veio com parcerias firmadas pelo fazendeiro com empresas privadas. A Cooperativa de Eletrificação Centro Jacuí (Celetro) cedeu a passagem dos cabos por seus postes, enquanto a empresa de telefonia Oi possibilitou a instalação da rede, conta Willy.

Aulas também para a vizinhança
A possibilidade de ter aulas de informática sem sair do campo atraiu moradores distantes 50 quilômetros da Fazenda Irapuá, como o casal de produtores rurais Ruy de Loreto, 71 anos, e Marilusa Baptista de Loreto, 65 anos. Depois de iniciarem as aulas, começaram a usar o computador de casa – antes um eletrônico praticamente sem uso – para reduzir os quilômetros que os separam dos filhos.

– Tínhamos computador e usávamos só para jogar Paciência. Agora, serve para conversar com os filhos, que moram em Porto Alegre e Aracaju (SE) – conta Loreto.

Marilusa complementa:

– Procuramos aulas na cidade, mas tem muita gurizada, e a maioria sabe mais. Aqui, aprendemos no nosso ritmo.

Para reunir na mesma turma pessoas de diferentes idades e conhecimentos, a professora Cristiane Radünz tem uma solução que considera simples:

– Respeito o ritmo de aprendizado de cada um. Todos têm condições de aprender e melhorar, basta um pouco de dedicação.

Prima do idealizador do projeto, Cristiane conta que se interessou pela iniciativa mesmo sendo professora de artes, e atua como voluntária. É na escola que encontra Marli Domingues, 47 anos, funcionária da fazenda.

– Nunca tinha usado o computador. Minha filha tem um em casa, mas eu só ficava olhando. Agora, até disputamos para usar o PC de casa – brinca Marli.

O programa da escola prevê o uso do sistema operacional, o pacote Office, digitação e internet. Como conhecimento extra, os alunos aprimoram a língua portuguesa.

– A aula funciona como uma ferramenta para melhorar a escrita. Escolho textos com boas mensagens e, durante o processo de digitação, faço com que prestem atenção ao revisar e corrigir – explica a professora.

Com os resultados positivos, Willy pensa nos próximos passos e procura parcerias para, no futuro, implantar na Fazenda Irapuá também outros cursos:

– A ideia é trazer uma nova forma de ver o mundo. Não adianta dar dinheiro. Tem que dar educação.

luane.magalhaes@gruporbs.com.br

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