sábado, 3 de abril de 2010

Verão termina, mas o debate sobre a banda larga, não

E-Thesis - 03-Abr-2010 - por Jana de Paula

Active ImageQual é o tamanho do mercado de banda larga fixa e móvel no Brasil? Antes do feriado da Páscoa, pelo menos duas empresas de pesquisa - IDC e Ibope Inteligência - divulgaram novas estatísticas, que vieram se somar a outros números divulgados ao longo deste comprido mês de março. No momento em que o governo avalia com cautela excessiva a adoção de um Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) e após a banda larga não ter sido contemplada na nova versão do PAC, todas estas estatísticas revelam que se a banda larga cresceu, ela poderia ter crescido de forma mais organizada e horizontal.

No seu levantamento sobre banda larga fixa e móvel no país, a IDC Brasil reuniu dados referentes à prestação de internet por DSL, modem a cabo, BWA/FWA, WiMAX, HSDPA, EDGE e EV-DO, entre outras. Reunindo todas estas tecnologias, houve crescimento de 26% da base de acessos, num total de 15,6 milhões, no primeiro trimestre de 2010.

O Ibope, por sua vez, divulgou que o acesso à internet em qualquer ambiente (residências, trabalho, escolas, lan houses, bibliotecas e telecentros), por brasileiros de 16 anos ou mais, chegou a 67,5 milhões de pessoas ao final de 2009. Isso significou um crescimento de 1,7% em relação ao terceiro trimestre e de 8,2% sobre o primeiro trimestre de 2009. Assim, o número total de pessoas com acesso à internet no trabalho e em domicílios cresceu 0,4% e chegou a 47 milhões. Do total de pessoas com acesso, 36,7 milhões foram usuários ativos em fevereiro de 2010.

Largura de banda e satisfação do usuário

Mas, estes números em milhões não dão conta de um ponto importante. A banda base adotada para tráfego de internet no país está longe de ser ‘larga'. No Speedtest.net, portal que mede a velocidade da banda larga da maioria dos países do mundo, o Brasil ocupa a 81ª posição, com velocidade média de 2.53 Mbps, enquanto o primeiro da lista é a Coréia do Sul, aponta 22.47 Mbps! Mesmo esta média atribuída ao Brasil não é mais do que isso. Muita gente que acessa a internet no país sabe que as taxas diárias podem ser inferiores. O estudo Brazil Quarterly Fixed & Mobile Broadband Database a IDC confirma que a distribuição de banda larga se concentra nas faixas de 256K a 511K e de 512K a 1Mbps.

Também chama atenção nos estudos divulgados, que a banda larga móvel tenha crescido mais do que a fixa, quando os usuários de 3G não se mostram satisfeitos com o serviço. A 22 de março passado, O Ministério Público Federal (MPF) acatou representação encaminhada há quase um ano pela Proteste Associação de Consumidores, para apurar eventuais prejuízos aos consumidores com a prestação de serviços 3G pelas operadoras de telefonia celular, que oferecem banda larga. De acordo com a Proteste, a mobilização surgiu do aumento das reclamações sobre a má prestação do serviço de banda larga 3G, que representaram quase 16% do total de reclamações dos seus associados no ano passado. As queixas têm aumentado e vão desde a ausência total do serviço, baixa velocidade, oferta diferente do que foi oferecido e mau atendimento ao consumidor até à propaganda enganosa.

No entanto, mesmo com a insatisfação dos associados da Proteste e com o atraso dos leilões para refarming de faixas de espectro para mobilidade - o que aumentaria aumentar a capacidade das próprias teles e permitiria o ingresso de novos players, como do WiMAX -, a banda larga móvel teve crescimento... Espontâneo?

Mobilidade para ricos e pobres

"A tecnologia de maior destaque foi, sem dúvida, a banda larga móvel, que somou mais de 1,6 milhão de acessos e superou as expectativas, já que seu crescimento foi de 82% em relação a 2008", disse Samuel Rodrigues, analista do mercado de Telecom da IDC Brasil.

O alto preço da banda larga fixa, a disponibilidade de créditos pré-pagos pelo celular e, é claro, a própria tendência de os usuários - no Brasil e no mundo - preferirem a mobilidade devem ter contribuído para a perda de hegemonia do acesso à internet via DSL. Segundo o estudo da IDC, o mercado doDSL ainda émaior - equivale a 67% do total de conexões - quando se exclui da comparação da banda larga móvel. "Quando incluímos a banda larga móvel, o percentual da banda larga fixa cai para 51,6%", acrescenta Rodrigues. No acesso fixo, o segmento que mais lutou para aumentar market share foi o das empresas de modem a cabo - a pesquisa da IDC dá conta de que, graças a "estratégias agressivas de preço e produtos bundle do principal provedor desse tipo de acesso" foi possível aumentar sua representatividade no mercado em 0,7%.

Enquanto não se projeta e implanta um plano de banda larga verdadeiramente nacional, soluções via radiofreqüência e via satélite se apresentam como meras alternativas nas localidades não atendidas pelas tecnologias convencionais. Além disso, a banda larga via satélite ainda sofre com a expansão da 3G e perde pequena cifra de clientes regularmente. Claro que em outros países onde os players de radiofreqüência e de satélite têm maior segurança quanto a seus investimentos, satélite, tecnologias wireless e fibra óptica surgem como tecnologias que se prestam não como meras ‘últimas alternativas', mas como parte importante de um backbone capaz de aproveitar a banda larga para levar serviços diferenciados e ampliar oferta de conteúdo audiovisual.

Os dados da IDC comprovam os dois segmentos de maior crescimento - e cuja demanda só se amplia com a perspectiva da Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas 2016 - foram o residencial (+46%) e o das grandes corporações (250%).

Em termos de categoria, de acordo com o Ibope Inteligência, a que apresentou o maior crescimento da audiência em fevereiro em relação ao mês anterior foi a de educação e carreiras, com aumento de 5,6%. Também cresceram os sites de finanças e investimentos (2,9%), governo e entidades sem fins lucrativos (1,7%) e notícias e informação (1,5%).

O "Monitor Acision de VAS Móvel" - Mavam, elaborado em parceria com a consultoria Teleco e também lançado na última semana de março, confirma o crescimento dos serviços financeiros entre a lista de serviços móveis prestados no país.

E embora o uso desses serviços ainda seja baixo - só 5% dos usuários brasileiros fizeram pagamento pelo celular nos últimos três meses e 7% acessaram algum banco por meio desse dispositivo no mesmo período - a aceitação é grande: 71% dos entrevistados utilizariam o celular como cartão de crédito ou débito.

"Na realidade o que falta aos usuários é conhecimento. Se as operadoras, bancos, corretoras, operadoras de cartão e companhias do setor de tecnologia se unir e divulgar os benefícios e as vantagens de usar o celular como meio de pagamento, a adesão será maior. Acredito que, em médio prazo, essas barreiras apresentarão números bem menores", enfatiza Rafael Steinhauser, presidente da Acision para América Latina.

PNBL e os pequenos provedores

Ainda no último dia de março, a Associação Brasileira de Pequenos Provedores de Internet e Telecomunicação (Abrappit), sugeriu em audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados, que o governo garanta recursos para novos investimentos em TIC, como contrapartida do acesso à banda larga ao preço de R$ 35, como vem sendo estudado através do Plano Nacional de Banda Larga.

O representante dos pequenos provedores, Ricardo Lopes Sanchez, defendeu o uso da rede estatal, por meio da Telebrás, como um catalisador das iniciativas das teles, empresas públicas, lan houses e provedores. Ele disse que a entidade vê como positiva a perspectiva de barateamento do custo da banda para ISPSs.

Antes de seguirem todos para o feriado prolongado, a maior parte dos envolvidos diretamente com o PNBL esteve presente à audiência. O secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Rogério Santanna, manteve a defesa de uma rede estatal de comunicações [via reativação da Telebrás], "como uma política estratégica, e a utilize para desenvolver novas empresas e incentivar a concorrência na oferta de serviços de acesso à internet em banda larga", segundo artigo publicado no site da própria Câmara Federal.

Após considerar que as teles estão acomodadas numa "zona de conforto", que é a assinatura básica obrigatória, ele disse: "Há um certo desincentivo para que as operadoras de telefonia migrem para redes de alta velocidade", disse, ao comentar que o acesso à internet compete com o serviço de voz, ofertado pelas teles.

O presidente-executivo da Abrafix, José Fernandes Pauletti, por sua vez, destacou que as estruturas existentes, inclusive as de controle estatal, devem ser utilizadas no Plano Nacional de Banda Larga, mas afirmou que não seria papel do governo atender o usuário final, e que não há espaço para competição em algumas localidades pois não haveria interesse econômico. Segundo ele, é preciso "fazer uma adaptação da base legal e regulatória envolvendo o Fust e a convergência tecnológica (PL 29/2007), além de rever a carga tributária do setor, que supera 43% para estimular a expansão das redes de banda larga.

Santanna rebateu os argumentos de Pauletti, afirmando que "quem inova consegue achar mercado onde os outros não acham", e disse que a rede estatal dará oportunidade para os pequenos provedores.

Rogério Gonçalves, Diretor de Pesquisa de Regulamentação da Associação Brasileira de Usuários de Acesso Rápido (Abusar), lastimou que a segunda edição do Programa de Aceleração do Crescimento, PAC 2, não tenha indicado recursos ou medidas a serem tomadas em relação ao PNBL. "Como ainda não houve uma definição sobre como vai efetivamente funcionar o PNBL, o governo preferiu evitar estimativas de investimentos", avalia ele.

"Caso a perícia a ser realizada na ação do backhaul confirme o fato de que as redes IP, patrocinadas pelas tarifas públicas do STFC, não são essenciais à prestação do serviço de telefonia fixa, isso vai obrigar o poder concedente a promover uma separação funcional das redes, haja vista que ficará provada a existência de uma imensa rede IP, pública, hoje em uso da Abrafix para explorar serviços de telecom que não têm nada a ver com o STFC, objeto das concessões delas", continua o diretor da Abusar.

Neste caso, a União também será obrigada a promover a reversão imediata ao patrimônio público dessa imensa rede IP pública. "Como as redes IP destinam-se à exploração de serviços de comunicação de dados (intercomunicação entre computadores) e esta modalidade de serviço de telecom jamais foi regulamentada pelo Poder Executivo após a publicação da LGT, resulta que, nostermos da lei 5.792/72 e do decreto 74.379/74, a exploração desses serviços, emregime público, com metas de universalização e continuidade, deverá ser entregue a uma subsidiária Telebrás, criada especificamente para essa finalidade, algo que deveria ter sido feito em 1997, por ocasião do processo de esquartejamento da estatal".

Segundo Rogério Gonçalves, existem vantagens na criação de uma subsidiária Telebrás, específica para a exploração dos serviços públicos de comunicação de dados:

1) Poderão ser imputadas à ela metas de universalização e continuidade (conforme já foi dito).

2) As tarefas de universalização de serviços de comunicação de dados, previstas nos incisos V a VIII do art. 5º da lei 9.998/00, poderão ser realizadas pela subsidiária Telebrás e financiadas com recursos do Fust, sem a necessidade de se alterar a lei.

3) Vai ser muito mais vantajoso para os usuários e para o país que as redes IP públicas sejam utilizadas, rigorosamente dentro da legalidade, por uma empresaestatal na exploração de serviços públicos de comunicação de dados, com tarifas fixadas pelo poder concedente e não de forma clandestina, para exploração deserviços privados.

4) A União vai se capitalizar após vender 39% do capital da empresa em ações ordinárias, que foram compradas a menos de 39 centavos.

5) As redes IP públicas permanecerão como patrimônio público, de forma a garantir a continuidade do serviço, ao invés de sofrerem o risco constante de serem incorporadas ao patrimônio particular dos controladores das carriers.

6) A tarifa de assinatura do STFC deverá ter uma brutal redução de valor, com o fim do desvio de 80% do valor da tarifa para implementação de redes IP que não podem ser operadas pelas concessionárias do STFC.

7) A iniciativa acaba com as vendas casadas de provedor + conexão em redes IP, onde são ofertados serviços clandestinos de comunicação de dados, com tecnologia aDSL.

Mas, todas estas vantagens só poderão ser implantadas caso a perícia do backhaul confirme que as redes IP não são essenciais aos serviços de telefonia fixa.

No "Canal Livre" deste domingo, quase tudo já poderá ser dito por Lula

Pelas características do programa e de seus entrevistadores, bem como pelo assunto mais palpitante do momento atual, é quase impossível que os temas "PNBL" e, principalmente, "reativação da Telebrás" não sejam trazidos ao debate.

Como uma das técnicas é recorrer ao
"material de pesquisa sobre o entrevistado para ilustrar o assunto", a Band tem seus arquivos a matéria abaixo, com dois vídeos que não deixam margem a dúvidas.

Além disso, após ter sido "o cara" de Obama e "homem do ano" em publicações internacionais, Lula agora mereceu, no WSJ de 29/03, a matéria "For Brazil, It's Finally Tomorrow -How the country of the future has at last made it—and what remains to be done", e na revista Time a indicação como um "the 100 most influential people in the world", ou seja uma das 100 pessoas mais influentes no mundo. Sem esquecer também que há um movimento para levá-lo ao cargo de Secretário-Geral da ONU futuramente.

Com tais credenciais e quase 80% de aprovação na última pesquisa de popularidade, Lula não deve ter motivos para deixar de dizer o que for necessário, particularmente se as perguntas forem diretas como as dos vídeos abaixo.

Assim, há uma boa probabilidade de que neste domingo, a partir das 23 horas, já se conheçam algumas das respostas sobre o PNBL e sobre a Telebrás.

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Sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010 - 17h14

Lula diz que vai recuperar a Telebrás para o Plano de Banda Larga







Da Redação tecnologia@eband.com.br

Nesta sexta-feira (19), em visita a Três Lagoas (MS), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo vai recuperar a Telebrás para o programa de banda larga no país.

Quando perguntado por jornalistas sobre a grande valorização das ações da Telebrás na bolsa nos últimos anos, Lula afirmou que, durante o seu governo, "as ações de todas as empresas cresceram". "Nós vamos recuperar a Telebrás, vamos utilizar ela para fazer banda larga neste país", disse o presidente.

O Plano Nacional de Banda Larga ainda está em discussão entre o ministro das Comunicações, Hélio Costa, Lula e representantes de órgãos ligados ao assunto.Em janeiro, Costa negou a reativação para o programa de banda larga. Após o anúncio do presidente, as ações da Telebrás subiram ainda mais, chegando a cerca de 13% às 17h desta sexta-feira.

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O Programa Canal Livre

O Canal Livre é um dos programas de entrevistas mais representativos da história da televisão brasileira, símbolo de independência nos anos 80 e 90. Ganhou destaque desde os tempos de luta pelas liberdades democráticas e firmou-se como um programa de grande prestígio no Brasil e no exterior. Nas noites de domingo, o Canal Livre permanece fiel à marca forte que lhe deu origem.

"A Band sempre fez um jornalismo com coragem, e o Canal Livre é um símbolo disso", ressalta Fernando Mitre, diretor nacional de jornalismo da emissora. Exibido de um estúdio especialmente desenvolvido e desenhado para ele, o programa dedica-se sempre a fazer entrevistas em profundidade com personalidade nacionais e internacionais, como chefes de Estado e lideranças expressivas nos meios político, econômico, empresarial, artístico e esportivo. Os jornalistas e o entrevistado ficam numa mesa redonda sob o foco de três câmeras cruzadas. Além disso, as imagens são registradas por uma quarta câmera móvel num trilho circular.

O diretor nacional de jornalismo diz que o Canal Livre vai recorrer ao material de pesquisa sobre o entrevistado para ilustrar o assunto. O arquivo da Band também vai resgatar imagens de momentos históricos do programa. O seu surgimento, em 1980, coincidiu com o processo de abertura política no país. Em plena ditadura, era uma tentativa de levar para a tevê um jornalismo mais crítico, opinativo e independente.

Jornalistas
- Joelmir Beting
- Fernando Mitre
- Abtônio Teles

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Banda Larga - Governo quer estimular concorrência

Por Mariana Martins em 2/4/2010

Reproduzido do Observatório do Direito à Comunicação, 31/3/2010; título original "Objetivo do governo com plano é criar concorrência"

A audiência pública sobre o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) realizada na terça-feira (30/4), na Comissão de Ciência e Tecnologia Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados, foi mais uma vez palco da disputa sobre o modelo a ser adotado para um programa de massificação do acesso à internet em alta velocidade no país. Os temas principais da disputa são o regime de prestação do serviço da banda larga e também a reativação da Telebrás, ou seja, o papel do Estado na oferta do serviço.
  • O secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Rogério Santanna, que também é membro do grupo de trabalho criado pelo governo federal para elaboração do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), afirmou que a questão central do plano não é se o serviço da banda larga é prestado em regime público ou privado, mas, sim, como fazer para aumentar a concorrência entre os atores e tirar as concessionárias de telecomunicações que prestam serviço de internet da "zona de conforto" em que se encontram.
Na semana anterior, em outra audiência pública realizada na Câmara, entidades de defesa do consumidor – a ProTeste e o Instituto Nacional de Defesa do Consumidor (Idec) – e do direito à comunicação – Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social – defenderam a adoção do regime público como questão chave para a universalização da banda larga (saiba mais). Na audiência do dia 30/4, Santanna defendeu que o regime público não resolveu o problema da telefonia fixa porque, neste setor, "não teve concorrência". Portanto, para o secretário, este não deve ser o centro do debate.

A tentativa do representante do governo de tirar o foco da discussão da natureza do serviço e colocar na concorrência aponta para uma já possível definição do governo sobre o tema. Reforça a ideia de que o governo não mexerá no regime de prestação do Serviço de Comunicação Multimídia (SCM) e o pedido feito por Santanna para que os deputados votem a favor do Projeto de Lei 1.481/07, que estava na pauta do plenário da Câmara, mas cuja votação foi novamente adiada. O PL muda substancialmente o caráter do Fundo Nacional de Universalização das Telecomunicações (Fust), criando a possibilidade de seus recursos serem usados nos serviços prestados em regime privado – como a banda larga. O secretário, entretanto, seguiu afirmando que "nada foi resolvido até agora".

A favor do regime público

Em defesa da prestação dos serviços de banda larga em regime público, posicionou-se tão somente o representante da empresa pública Informática de Municípios Associados (IMA), Pedro Jaime Ziller, que relembrou também que as discussões da reativação da Telebrás permeiam os debates da Câmara dos Deputados desde 2003. Ziller, ex-conselheiro da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), foi taxativo quanto à impossibilidade de o setor privado prestar o serviço de banda larga de forma a universalizá-lo sem que isso se dê no regime público.
  • Apoiando-se na fala do representante das prestadoras José Fernandes Pauletti, que afirmou que o papel do Estado deveria ser fazer chegar a internet onde "não havia interesse das operadoras" por não haver "mercado", Ziller defendeu a reativação da Telebrás e a criação de subsidiárias para prestação dos serviços finais. Segundo ele, não se pode deixar um serviço essencial nas mãos de quem só pode prestá-los a partir da lógica de mercado.
"Se não fosse um acordo do governo pela troca de metas do Plano Geral de Metas e Universalização do Serviço de Telefone Fixo Comutado por internet nas escolas públicas, por exemplo, isso não teria sido feito pelas concessionárias", afirmou Ziller, que estava na Anatel quando houve a mudança no PGMU. "Estados e municípios precisam ter acesso às redes públicas. É necessário e oportuno que a prestação desse serviço seja em regime público, conforme deixa muito clara a Lei Geral de Telecomunicações em seu artigo 64."

Ziller lembrou que o que está em questão com a discussão do PNBL é fundamentalmente a democratização dos meios de comunicação, para a proporcionar a pluralidade e a diversidade de forma a não mais fazer dos meios de comunicação indutores da formação de consensos.

Telebrás, pomo da discórdia

A fala de Rogério Santanna polarizou principalmente com a de José Fernandes Pauletti, representante Associação Brasileira de Concessionárias de Serviço Telefônico Fixo Comutado (Abrafix), obviamente não em relação ao regime em que deve ser prestado o serviço de banda larga. O tema da discórdia entre governo e empresários segue sendo a reativação da Telebrás, e, mais especificamente, a função que deverá cumprir a estatal na execução do PNBL.

Na opinião de Pauletti, não é papel do Estado, em princípio e no atual modelo, atender o usuário final. Para o representante empresarial, o Estado deve se ater à tarefa de organizar os debates sobre o PNBL e também favorecer que haja o uso intensivo das infraestruturas existentes.

Santanna não deixou claro se o Estado vai ou não prestar a "última milha" – levar o serviço até a porta da casa dos usuários –, como temem às concessionárias. O secretário defendeu que a Telebrás é fundamental para o que ele chamou de "mudança de paradigma tecnológico" que estaria em curso no Brasil.

Segundo o secretário, neste novo cenário, onde aparentemente não há mercado para as concessionárias hoje, pode haver amanhã e o Estado também poderia atuar nessas áreas e ainda ter rendimentos.
  • Para Santanna, o critério da inovação pode ser uma boa aliada das novas tecnologias, e citou o Google e o Skype como modelos de serviço que "exploraram o inusitado e se deram bem". O recado velado de Santanna aos empresários foi: invistam em outros serviços.
Rede pública e soberania

O secretário defendeu que a Telebrás – e não os Correios, como quer o agora ex-ministro das Comunicações Hélio Costa, ou a Serpro, como andou sendo ventilado na mídia – seja a gestora do PNBL. A favor da Telebrás pesam os fatos de que o Brasil não tem ofertantes suficientes para atingir estruturalmente a grande maioria da população – ou seja, faltam os backbones (estrutura central de cabos) e backhauls (as estruturas que dão acesso aos estados e municípios) – e da necessidade da existência de uma rede pública como uma questão de soberania nacional.
  • "Ter o controle das comunicações, ter uma rede própria do Estado nos dias de hoje é tão estratégico como ter submarinos e outros aparatos de defesa nacional", afirmou o secretário. "Como será a situação do Brasil se em um momento de conflito mundial depender de um satélite que está nas mãos de uma empresa estrangeira, que é influência de outra nação? Em um possível conflito de interesses, eles podem deixar o Brasil incomunicável. As forças de defesa de um país precisam de autonomia nas comunicações."
A falta de uma infraestrutura de cabeamento que atenda a maioria da população, para Santanna, também estaria resolvida com a revitalização da Telebrás. A estatal tem uma rede de aproximadamente 20 mil quilômetros de fibra ótica que pode ser usada na expansão da banda larga, além dos ativos de energia das redes da Eletronorte e da Eletrobrás que também podem ser usados.

Apesar de não ter deixado explícito isso em sua fala, Santanna mostrou-se próximo à ideia de a Telebrás servir como um órgão catalisador da concorrência entre grandes e pequenos provedores e chegando, possivelmente com a ajuda destes últimos, onde não há interesse dos primeiros. Não informou, porém, se o governo vai ou não prestar a chamada "última milha", ou seja, se tornar ele mesmo um provedor público de internet.

Santanna mostrou-se motivado com a instabilidade que gera a discussão da Telebrás para as concessionárias, que na opinião do secretário só fazem concessões sob pressão e ameaça do Estado.
  • "Às vezes a instabilidade ajuda, porque estávamos acomodados. Se as concessionárias continuarem achando que o Estado é um leão sem dentes vão continuar como estão. Só quando acham que vão ter concorrentes é que se movimentam, como no caso da banda larga. Podem ver: as empresas de telecomunicações são as campeãs de reclamação no Procon."
Ao responder às provocações do secretário, Pauletti avaliou que o governo acerta no diagnóstico sobre os desafios da banda larga, mas erra nas conclusões que, na opinião do representante da Abrafix, são tendenciosas. As concessionárias parecem temer que a Telebrás venha a ter facilidades que dificultem a concorrência em pé de igualdade entre os atores públicos e privados.
  • "Os competidores devem ser tratados de forma isonômica e devem poder utilizar os fundos também de forma isonômica, bem como participar das licitações. Devemos todos estar submetidos à mesma regra", advertiu Pauletti.
O empresário disse ainda que a diminuição do preço das tarifas da telefonia – e, supostamente, também dos demais serviços de comunicação –, citada por Rogério Santanna nas críticas às teles, dependia também da diminuição da carga tributária cobrada pelo Estado a este serviço.

Pequenos a favor do PNBL

Ao contrário das grandes operadoras de telecomunicações, os pequenos provedores de internet estão alinhado com o governo federal.
  • O representante da Associação Brasileira de Pequenos Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrappit), Ricardo Sanchez, defendeu a reativação da Telebrás. Segundo ele, a associação, desde o início do debate do PNBL, vem fazendo testes de uso da rede pública já existente e, atualmente, 250 pequenos provedores estão usando a rede da Eletrobrás para prestar internet por rádio para alguns municípios do país. Segundo Sanchez, isso responde a uma das perguntas iniciais da deputada proponente da audiência, Luiza Erundina (PSB-SP), sobre a viabilidade da rede das redes que possivelmente serão geridas pela Telebrás.
Sanchez defende que a Telebrás atue como a tal catalisadora da concorrência entre os pequenos e grande provedores, visto que os primeiros não querem chegar onde não há um grande mercado a ser explorado e os pequenos provedores poderiam contar com a rede públicas para não mais depender das rede que estão sob domínio das concessionárias.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Está na hora de retomar a Telefônica [ou: a verdadeira história da Telebrás]

por Virgílio Freire*

http://www.ethevaldo.com.br/Generic.aspx?pid=1095

1. No final da década de 1990, sob a influência de Margareth Thatcher, Ronald Reagan e Wall Street, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso resolveu privatizar tudo que pudesse, e na sua lista o item mais importante eram as telecomunicações. Por dar a máxima importância ao assunto, colocou seu melhor amigo e principal colaborador, Sérgio Motta, no Ministério das Comunicações, com a principal missão de privatizar a Telebrás. A idéia corrente na época era de que o Estado não tinha condições de investir nem de ser um bom administrador de empresas. Este conceito mostrou-se falso na última década.

2. Antes de prosseguirmos, é importante, muito importante, destruir um mito. O de que a antiga Telebrás e suas subsidiárias eram incompetentes, ineficientes, lentas, burocráticas e incapazes de prestar os serviços de telecomunicações necessários exigidos por uma sociedade moderna. Mostrarei por que isto não é verdade.

3. A Telebrás tinha sede em Brasília, e atuava através de subsidiárias, uma em cada Estado brasileiro. Estas operadoras, todas, sem exceção, tinham lucros consideráveis todos os anos. Os balanços anuais da Telebrás e de suas subsidiárias estão nos arquivos dos jornais, da Anatel, do Ministério das Comunicações, e confirmam isso. Com estes lucros, a Telebrás e suas empresas poderiam facilmente investir, implantar novos sistemas e instalar milhões de telefones para os brasileiros. Os recursos, na época, eram da ordem de bilhões de dólares, nada inferiores aos valores que as operadoras privadas “investem” atualmente (voltarei a este tema mais adiante).

4. Durante os governos militares, entre 1964 e 1974, nestes 10 anos, a Telebrás teve grande autonomia de ação, pois os generais e militares que governavam o Brasil viam as telecomunicações como um setor estratégico para o desenvolvimento e a defesa. Quando entrei na Telesp, subsidiária da Telebrás em São Paulo, em 1973, não havia necessidade de concurso público: a empresa admitia seus funcionários através de um Departamento de Recursos Humanos, como qualquer outra organização, com base em testes, entrevistas, comparação entre candidatos etc. Nosso orçamento era administrado pela própria Telesp e pela holding, a Telebrás, e inteiramente gasto e aplicado dentro do sistema de telecomunicações.

5. Quando entrei para a Telesp, o Brasil todo tinha 3 sistemas de micro-ondas – um ligando o Rio a São Paulo, outro ligando São Paulo a Campinas e um terceiro ligando o Rio a Brasília.

6. Os militares criaram um fundo para que o sistema de telecomunicações pudesse expandir-se e manter-se financeiramente robusto. Era uma taxa, cobrada em todas as contas telefônicas, chamada FNT, ou Fundo Nacional de Telecomunicações. Por lei, este dinheiro, que era de bilhões de dólares, deveria TODO ser aplicado na expansão, ampliação, manutenção e operação das telecomunicações do Brasil.

7. Estes recursos foram aplicados de forma ética e profissional por um grupo de jovens profissionais vindos da universidade na década de 60, engenheiros acima de tudo, gente com pós-graduação na França, nos Estados Unidos etc., e orientados por engenheiros militares – homens sem qualquer orientação ideológica, mesmo naquela época da Guerra Fria. Entre os anos de 1968 e 1978 o Brasil passou de apenas 3 ligações de micro-ondas para uma rede de torres com altura de até 100 metros, cobrindo desde Manaus a Porto Alegre, de Corumbá a Natal. Dezenas de milhares de quilômetros de micro-ondas, interligando o País. Implantou-se a Discagem Direta a Distancia, que hoje é considerada corriqueira, mas, antes da Telebrás, para se falar com outra cidade tinha de ser através da telefonista.

8. A Embratel, encarregada dos troncos de longa distância, mandou seus engenheiros especializarem-se no Japão, Estados Unidos, França, Itália. Assim, os recursos do Fundo Nacional de Telecomunicações foram usados da forma prevista em lei, e eficientemente.

9. Ocorre que nos últimos governos militares, ou seja, dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, e posteriormente já sob a presidência de José Sarney, que somam 16 anos (note bem, 16 anos), a Telebrás viveu sob uma série de limitações e restrições. Foi a época da hiperinflação, em que em apenas um dia a moeda brasileira perdia mais de 1% ou 2% de seu valor. Em um ano a inflação era de mais de 1.000%.

10. O ministro todo-poderoso na época dos militares era o hoje deputado Antônio Delfim Netto. O Brasil havia contraído pesadas dívidas com bancos estrangeiros, e havia uma enorme pressão do governo americano, do FMI e do Banco Mundial para que esta dívida fosse paga dentro do prazo. E não conseguíamos. Todos os anos renegociávamos a dívida. Deixávamos de pagar, atrasávamos os pagamentos. Delfim, então, criou um “Fundão”. Ilegal, mas na época nada que os militares e seus amigos resolvessem era ilegal.

11. Delfim determinou que os recursos de todos os fundos setoriais, como era o caso do Fundo de Telecomunicações, fossem diretamente depositados no Fundão, e que não fossem mais aplicados nos setores respectivos. Então, a partir da década de 1980, a Telebrás foi forçada a renunciar aos enormes recursos do FNT e colocá-los no Fundão. Mas a coisa ficou ainda pior. Delfim criou um organismo chamado Secretaria de Controle das Estatais (Sest). A função desta secretaria era administrar as estatais. Literalmente.

12. Então, também a partir dos anos 1980, a Telebrás, todos os anos, elaborava seu orçamento de investimentos e de gastos em operação para o ano seguinte, e seu presidente era forçado a ir negociar estes números com a Sest. Nesta última, quem mandava eram os jovens economistas discípulos de Delfim Netto, preocupados apenas em pagar a famosa dívida externa, e sem nenhuma sensibilidade para um conceito mais amplo e estratégico de desenvolvimento da infraestrutura do País, em estradas , transportes, ferrovias (sucatearam toda a rede ferroviária do Brasil) e telecomunicações.

13. Então, a Sest analisava os planos da Telebrás apenas do ponto de vista econômico, e ainda assim com a estreita visão de verificar o quanto a Telebrás poderia contribuir para a redução da dívida externa – não comprando equipamentos importados, não gastando em pessoal etc. O nível de controle central e de opressão da Telebrás chegava ao ponto de que qualquer reajuste de salários tinha de ser aprovado pela SEST, qualquer aumento no número de funcionários da Telebrás tinha de também ter sua aprovação. Os gastos com operação, com pessoal, com equipamentos, os investimentos em novos sistemas, tudo tinha de ser aprovado pela Sest.

14. Pense um pouco no martírio que é para uma empresa de alta tecnologia, que tem de atuar num mercado ágil e em contínua mudança, ter de solicitar à Sest aprovação para aumentar o número de funcionários de 50.356 para 51.896, por exemplo – não estou exagerando, estes fatos ocorreram. Nós, executivos da Telebrás, estávamos constantemente frustrados pela camisa de força da Sest, e impedidos de reagir contra ela – até porque o presidente da Telebrás era um general (muito íntegro, respeitado por todos, mas nenhum general descumpre uma ordem superior).

15. E ainda ficou pior. Uma vez aprovado pela Sest quanto a Telebrás podia investir, era necessária a aprovação do Congresso Nacional. Permitam-me insistir – a Telebrás, em determinado ano, lucrava US$ 4 bilhões. Propunha à Sest investir em novos sistemas US$ 2 bilhões, por exemplo, a fim de atender à demanda telefônica, que não era atendida. A Sest fazia seus cálculos cabalísticos e informava à Telebrás que só poderia investir US$ 1 bilhão – o restante iria para ao pagamento da dívida externa. A Telebrás obedientemente investia apenas o autorizado, e a demanda ficava não atendida, as pessoas frustradas, revoltadas, porque devido a esta limitação artificial de recursos e ao fato de não dispor mais do dinheiro do FNT, os prazos para receber uma linha telefônica nova eram de 2 ou 3 anos. Repetindo: a Telebrás tinha dinheiro e não a deixavam gastar. O sistema telefônico estagnava, e a culpa era atribuída erroneamente à nossa empresa de telecomunicações.

16. O orçamento de investimentos já drasticamente reduzido pela Sest era então submetido ao Congresso, que fazia novos cortes. E enquanto o Congresso não aprovasse, a Telebrás não podia investir sequer o que a Sest havia autorizado.

17. Essas eram as condições de governança da Telebrás. Apesar de seu porte, de ser lucrativa, de ter um mercado ávido, de possuir recursos financeiros e humanos, era impedida de trabalhar como uma empresa, e forçada a funcionar como uma repartição pública. Os governos civis mantiveram o Fundão, mantiveram o controle da Sest, e a Telebrás continuou engessada, para frustração do público e dos profissionais que nela atuavam, e que queriam atender às necessidades em telecom do Brasil.

18. Criou-se então, propositalmente ou não, a imagem de que “o Estado não sabe administrar”. Pelo visto acima, não era uma questão de ser ou não administrada pelo Estado e sim de ter liberdade de funcionar como uma empresa. Na mesma época, a Petrobrás era dispensada destes controles, ou, se os havia, ela os ignorava, e continuou expandindo-se, no Brasil e no exterior. Prosseguiu nas pesquisas de extração no mar, assinou parcerias com outros países etc. Já a Telebrás foi ficando cada vez mais desmoralizada, por se submeter aos cortes e à perda de seu fundo de expansão.

19. Era a década de 1980, e a moda eram as privatizações na Inglaterra feitas por Margareth Thatcher, era a implantação do “Modelo Competitivo” nos Estados Unidos. Ambas as ideias mostraram-se inadequadas e ambiciosas demais. Margareth Thatcher vendeu as ferrovias, as estradas, as telecomunicações, tudo. Ainda durante seu governo houve pelo menos 4 grandes acidentes ferroviários, consequência de má administração nas ferrovias privatizadas. Já nos Estados Unidos, a filosofia ultracapitalista da Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), a Anatel americana, era de que, se fossem vendidas licenças para que outras empresas concorressem com as telefônicas do Grupo AT&T, também chamado Grupo Bell, a concorrência seria benéfica para o consumidor. Venderam então licenças para operar sistemas de telefonia fixa, celulares, de longa distância. A concorrência nunca decolou.

20. Após mais de 20 anos, as novas operadoras não haviam conseguido mais do que 10% do mercado. Simplesmente porque a ideia é inviável. Imagine-se que o governo deseje implantar “concorrência” no sistema de fornecimento de energia elétrica. Venda uma licença para operar a distribuição de eletricidade. A empresa ganhadora da licença teria de fincar milhões de postes, lançar milhões de quilômetros de fios, para poder chegar na sua casa. Evidentemente seria impossível investir tudo isso e ainda ser lucrativa. O mesmo ocorre em telecomunicações, com raras exceções. É impossível a real competição, porque já existe uma operadora com uma rede imensa de cabos e fios, de sistemas, e quem quiser concorrer vai ter de investir bilhões de dólares, com retorno duvidoso. Por isso a competição não funcionou nos Estados Unidos, nem na Europa, e nem no Brasil.

21. Aqui, então, surfando na ideologia mundialmente aceita na época de que o Estado é mau administrador e de que “a competição é sempre benéfica para o consumidor”, o governo de Fernando Henrique Cardoso decidiu fazer o que a Inglaterra havia feito – vender a operadora estatal de telecom e abrir licenças para competidores. Com a venda dos ativos estatais, o governo recebia dinheiro para terminar de pagar a dívida externa, e com a venda de licenças para outros concorrerem no mercado de telecom, também recebia polpudos recursos para aplicar onde quisesse. E, teoricamente, quem comprasse a Telebrás iria usar seu próprio dinheiro para investir e melhorar as telecomunicações no Brasil.

22. Vendeu-se então a Telebrás, dividida em quatro partes – a Embratel, que tinha todo o sistema de longa distância e de transmissão de dados, e a telefonia fixa local agrupou-se em três empresas: uma em São Paulo, a Telesp, outra cobrindo o Sul e o Oeste, e uma terceira cobrindo o Nordeste desde o Espírito Santo até o Amapá.

23. No caso de São Paulo, venceu o leilão a Telefónica de España. Grandes esperanças, grandes comemorações. Mas logo uma nova realidade desabou sobre a Telesp. Chegaram os espanhóis. Inicialmente colocaram um espanhol “grudado” a cada gerente brasileiro. Em seguida demitiram os brasileiros. Hoje não existe na atual Telefônica, ex-Telesp, ninguém com mais de 10 anos de casa. Toda a memória profissional da empresa foi perdida.

24. Implantaram desde o início a famosa mesa de compras, uma instituição de caráter financeiro extremamente prejudicial à própria Telefônica – mas o sistema vinha sendo usado na Espanha, por que não no Brasil? Consiste do seguinte: a empresa faz uma concorrência, como é normal. Convida cerca de 5 a 10 participantes. Uma análise de preços é feita, bem como uma analise técnica. Escolhe-se o vencedor, com o menor preço e a melhor proposta técnica. Normalmente o processo de compra terminaria aí, com a assinatura do contrato e implantação do sistema. Mas na Telefônica é diferente.

25. O processo vai para a mesa de compras, na qual os executivos são remunerados em função dos descontos que conseguem. Chamam a empresa vencedora, e comunicam (sim, não negociam, comunicam) que se o vencedor não der um desconto de, por exemplo, 20%, nada feito, o contrato não será assinado. A empresa escolhida preparou a sua proposta com base em dados de custos, de mercado, prevendo certo nível de compras, certo número de homens-hora de profissionais etc. É obrigada a aceitar a redução imposta pela Telefônica, assina o contrato, o espanhol da mesa de compras fica mais rico com um enorme bônus, e o usuário brasileiro é o único prejudicado. A fim de conseguir implantar o sistema pelo novo preço, agora drasticamente reduzido, o fornecedor tem de fazer cortes.

26. Reduz a qualidade do material, a qualidade da mão-de-obra, reduz a confiabilidade dos sistemas, enfim, adapta sua proposta ao que vai receber. E assim a Telefónica foi ao longo destes últimos 10 anos expandindo as telecomunicações no Estado de São Paulo, da forma mais barata possível, e com baixíssima qualidade e confiabilidade.

27. Mas pelo menos os espanhóis investiram, trouxeram dinheiro da Espanha, verdade? Infelizmente, não. A Telefónica de España não enviou de Madri um único euro para investir no Brasil. Todo o investimento feito aqui pela Telefônica usou receitas obtidas aqui mesmo. Ou seja, quem pagou os investimentos – mal feitos – da Telefônica foi o consumidor brasileiro - e os bancos brasileiros, principalmente o BNDES. Veja bem, vendemos a Telesp aos espanhóis, estes usaram nosso dinheiro para investir e obter lucros enormes que mandam para a Espanha. Além disso, criaram um enorme desemprego no setor – a privatização da Telebrás colocou na rua em dois anos nada menos do que 200 mil pessoas. Sim, 200 mil profissionais foram dispensados. Para dar lugar aos espanhóis ou para fazer economias que no futuro iriam cobrar um pesado preço sob a forma de péssimo serviço e falhas no sistema.

28. A Telefônica terceirizou tudo que foi possível, começando pelo atendimento. Vendeu o setor de atendimento à empresa espanhola Atento, de propriedade da Telefónica de España. Note: de propriedade da Telefónica de España. Ou seja, a Telefônica Brasil compra os serviços da Atento, paga pelos serviços, a Atento lucra com eles, e remete seus lucros diretamente para Madri. Terceirizou manutenção de prédios, operação dos sistemas, manutenção, tudo. Os projetos são feitos pelos fornecedores, a engenharia idem. Não existe na Telefônica, hoje, um grupo de profissionais de telecom. Ela é nada mais do que a marca. O resto é de terceiros. E mais uma vez feito de forma impositiva e leonina, pois os fornecedores que implantaram os sistemas são chamados e informados de que terão de tirar os defeitos, operar, manter etc. O fornecedor faz seus cálculos, usando o número adequado de homens, de veículos, equipamentos de teste etc. Apresenta uma proposta, e a mesa de compras exige –mais uma vez – enormes descontos. O fornecedor tem de ceder, mas de novo reduz o número de pessoas, de veículos, de equipamentos, reduz a qualidade da mão-de-obra, faz cortes drásticos para poder cumprir o contrato e ainda ter lucro.

29. Neste ponto cabe uma pergunta: como pode a Telefônica imaginar que um determinado serviço que ela anteriormente fazia com mão-de-obra própria ser feito por outra empresa, que irá obrigatoriamente colocar uma margem de lucro, e ainda assim ficar mais barato do que se a operadora o fizesse? Não há lógica.

30. Não se terceiriza jamais o contato com o cliente. É por isso que as empresas aéreas não terceirizam pilotos e aeromoças. Seria inimaginável. E, no entanto, fomos levados aceitar como normal que um atendimento para uma reclamação de defeito numa rede de altíssima tecnologia seja feito por uma mocinha que não tem nenhum vinculo com a Telefônica, nenhum interesse em realmente resolver seu problemas, que não tem a mínima ideia do que é o sistema, que foi treinada como um autômato para burocraticamente anotar a reclamação e passar adianta. Cujo tempo de atendimento é rigidamente controlado e não pode superar 90 segundos. Que mesmo para ir ao toalete tem horários determinados. Tudo para que Madri tenha mais lucros.

31. No último trimestre o faturamento da Telefônica na Espanha caiu 4,2%, enquanto na América Latina cresceu 4,8%. Traduzindo: os cortes de pessoal no Brasil, as economias e cortes de custos que provocam panes e apagões, ajudam a aumentar o lucro da Telefônica no mundo. Quem sustenta a empresa somos nós, latino-americanos, e não os espanhóis. Sabe por quê? Porque na Espanha ela não poderia tratar o cliente da forma que faz aqui. O governo espanhol imediatamente trocaria toda a diretoria da empresa.

32. Mas então, cabe a pergunta: se a Telefônica veio para o Brasil para atender ao Estado de São Paulo, não investiu recursos próprios, é campeã de reclamações no Procon, tem um histórico de falhas, defeitos e panes inédito em todo o mundo, o que ela está trazendo de positivo para o Brasil? Não traz dinheiro, não traz know-how, piorou os serviços.

33. Pare um instante, leitor, e honestamente responda: no dia de hoje, quem é melhor administrada: a Telefônica em São Paulo ou a Petrobrás?

34. Quiséramos nós que as telecomunicações em São Paulo tivessem o mesmo nível que a extração, o refino e a distribuição de combustíveis. Logo, não é verdade que “o Estado não sabe administrar”. Mesmo com alguma interferência política que sabemos existir, a Petrobrás é eficiente, respeitada aqui e lá fora, e não sofre de apagões de combustível.

35. Apenas para reforçar o argumento, e o Banco do Brasil? É estatal e luta no mercado bancário em condições de igualdade, dá lucros enormes e ninguém acusa a diretoria do BB de ser inepta devido ao fato de a empresa ser estatal.

36. Então, esta ideia de que empresa estatal é por definição lenta, obsoleta, com gente preguiçosa e ineficiente, é uma inverdade. Temos de olhar a realidade, sem ideias preconcebidas, e reconhecer que o mundo mudou, Marx está morto, mas o capitalismo selvagem também, e que temos de ser criativos e repensar alguns conceitos. E algumas decisões do passado.

37. Nessa linha, olhando o que a Telefónica de España fez no Brasil nos últimos 10 anos, parece-me que fica claro que não fez nada melhor ou nada mais do que a própria Telebrás teria feito se tivesse a liberdade de que sempre gozou a Petrobrás. Se tivéssemos mantido a Telebrás e a liberado para investir seu próprio dinheiro, hoje teríamos uma empresa poderosa, eficiente, brasileira, e certamente atuando com competência no exterior, como é o caso da Petrobrás.

38. Chegou a hora. Vamos aproveitar o momento de transformações por que passa o mundo, o novo status que o Brasil ganha, e o péssimo nível dos serviços da Telefônica, para comprá-la de volta, colocá-la em mãos brasileiras, com gente que tome decisões com base no cliente brasileiro e não com base em aumentar os lucros que manda para Madri. O Brasil todo irá aprovar.
Poucos sabem, mas a Telebrás ainda existe, não foi extinta, permanece como que “em estado de hibernação”. Tem sede em Brasília, com meia dúzia de funcionários que cuidam principalmente de comunicações governamentais.

39. O contrato de concessão assinado pelo governo brasileiro com a Telefônica, no Capitulo XXVIII, trata da extinção da concessão. Podemos a qualquer momento informar aos espanhóis que nossa paciência se esgotou, que temos gente igual ou melhor do que eles, e que queremos as telecomunicações de São Paulo de volta. Compramos a empresa de volta. Definimos uma forma suave de pagamento. Colocamos gente nossa, do Brasil, comprometida com nossa sociedade, para administrar a empresa. E garanto que os apagões nunca mais se repetirão.

40. Se você acha que este artigo tem lógica, divulgue a ideia. Hoje, enfrentar a gigante espanhola pode parecer um projeto de difícil implantação. Mas Gandhi também tinha um projeto enorme, a liberdade de seu país, e começou com um partido de um homem só. Também Martin Luther King. Se nós quisermos, nós conseguimos.

* Virgílio Freire é engenheiro de telecomunicações, consultor sênior, ex-funcionário da Telesp, ex-presidente da Lucent Technologies no Brasil, da Nortel e de outras empresas.




O PIG e a Telebrás


01/04/2010 - Blog da Dilma


Companheiros e companheiras,

O partido da imprensa golpista (PIG) não suportou, como é de seu feitio neoliberal e capitalista, ver a candidata do povo crescer nas pesquisas. Após um período sem entender o que teria acontecido, o PIG partiu para a intriga e para o jogo sujo, usando o que tem de mais poderoso: a pena e o lápis dos jornalistas e órgãos de imprensa patrocinados pelos donos do capital que não querem servir ao povo, mas sim servir-se do povo.

Além da pesquisa com dados obtidos com o chamado "vício de origem" feita pelo Datafolha, o caso da Telebrás está sendo bastante significativo para mostrar aos ainda incrédulos que o PIG existe, é forte e não pode ser desprezado.

Bastou o companheiro Lula ter afirmado que a empresa será reativada e que dará lucro para ser reinvestido em benefício da população menos favorecida, para os abutres do PIG voltarem contra ela suas baterias de infâmias e calúnias através dos mesmos jornais e revistas de sempre. Assim aconteceu com o caso da Eletronet, com o da suspeita de caixa dois e com o da nota do Tesouro. Embora as acusações não resistam aos mais simples argumentos, a tática é usar as manchetes e os textos mentirosos repetidas vezes, até parecer ser verdade.

A última tentativa que está sendo feita é a de semear intrigas entre membros do PT no governo e destes com os partidos que compõem a base aliada, pretendendo criar uma desestabilização interna que anteceda e favoreça o lançamento da candidatura de Serra.

Para isso, as publicações dos últimos dias ilustram bem essa tentativa. No dia 26, o boletim Teletime publicou matéria sob o título "PMDB aposta nos Correios como gestor do PNBL". No dia 30, o ministro Hélio Costa, em matéria divulgada pela imprensa, desmentiu o Teletime, afirmando que "Muito embora os Correios tenham capacidade para administrar o projeto, a empresa não foi considerada no processo. A principal opção em debate no governo é a de usar a Telebrás para ser a operadora do Plano Nacional de Banda Larga". Mesmo assim, ainda no dia 30 o Teletime enviava para seus seguidores no Twitter a matéria do dia 26, numa clara tentativa de reforçar a idéia que já sabia ser mentirosa, o que foi comprovado com as declarações do novo ministro Filardi: "Isso (a possibilidade dos Correios assumirem a banda larga) saiu agora. Não sei por que. Não há menor possibilidade. Não vi ninguém no ministério falando nisso e está fora de cogitação”.

Ainda no dia 29, ao ver que o PNBL não fora anunciado em nenhum dos seis eixos do PAC-2, o PIG "deitou e rolou", afirmando que as dúvidas sobre a Telebrás era o que estava emperrando o Plano.

Na audiência pública sobre o PNBL havida na Câmara no dia 30, embora o secretário Rogério Santanna e o ex-presidente da Anatel Pedro Ziller tenham sido bastantes claros e enfáticos ao dizer que a Telebrás é a melhor opção para gerir o PNBL, o PIG publicou em destaque apenas a versão das operadoras, onde estas afirmavam que são a melhor opção e que a Telebrás seria deficitária se viesse a ser utilizada.

No final do dia 30, ao perceber que a intriga ligando o PMDB e os Correios ao PNBL caíra por terra, o boletim Convergência Digital lança outra intriga sob o título "Serpro trabalha nos bastidores para operar rede nacional de banda larga", pretendendo intrigar o companheiro Mazoni, presidente do Serpro, com o companheiro Santanna, secretário de Logística e TI do Ministério do Planejamento e arquiteto da participação da Telebrás como gestora do PNBL.

No dia 31, é a vez da famigerada Folha de São Paulo se revezar com os demais e requentar o assunto já desmentido, publicando, em subtítulo, que a MP que cria os Correios S.A. "pode ser o primeiro passo para estatal abraçar programa de banda larga". Também no dia 31, jornal Valor Econômico (sociedade da Globo com a Folha) estampa manchete dizendo que a bolsa havia vetado a participação da Telebrás no seu índice, por ela ser inoperante.

Enfim, com o apoio também do demo-tucanato, a intenção do PIG é bastante clara e se baseia em quatro eixos:
- intrigar os membros do governo e da base aliada ligados ao PNBL, visando impossibilitar a execução deste plano;
- levar a população a acreditar que a reativação da Telebrás tem o objetivo de apenas beneficiar a criação de cargos públicos e membros do PT que teriam "interesses na empresa";
- se não conseguir detonar o PNBL, fazer com que as grandes operadoras o liderem, através de subsídios fiscais (leia-se: impostos pagos pelo povo);
- evitar que o companheiro Lula reative a Telebrás e, assim, não cumpra com o que afirmou publicamente, para depois acusá-lo de ter enganado o povo.

O que o PIG e demo-tucanato ainda não perceberam é que não foi com mentiras, com enganações e com trapaças que Lula e o PT conquistaram a confiança do Brasil e até do mundo nos últimos 25 anos. Não foi também com covardia política ou pessoal que Lula se transformou no presidente mais popular, respeitado e admirado que este país já teve, como atestam as últimas pesquisas que lhe dão quase 80% de aprovação popular. Esse índice, para um presidente em final de mandato e após oito anos de gestão, é um fato inédito na história do Brasil.

Não perceberam também que podem até enganar muitos durante algum tempo, mas o povo honesto e simples tem mais sabedoria do que eles supõem, e não poderá ser enganado durante todo o tempo. Assim foi com Lula nas últimas duas eleições e será com Dilma em outubro.

Um abraço e DILMA 2010!

Roberto Carvalho
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Colocando os pingos nos "i": quem está contra e a favor da Telebrás no PNBL

*Leonardo Araujo

Após uma verdadeira operação terrorista visando detonar a Telebrás e o valor de suas ações, é hora de colocar os pingos nos "i", pois a semana está findando e, na que vem, muitas decisões já poderão estar sendo divulgadas.

Analisando os últimos dois meses, não é difícil perceber quem está a favor e quem está contra a reativação da Telebrás:

A favor:
1) Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente da República Federativa do Brasil, que, por três vezes e publicamente, declarou ao povo que a empresa seria reativada, iria dar lucro e suas ações iriam se valorizar.

2) Paulo Bernardo dos Santos, Ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, cujo Secretário de TI e "braço direito" foi o arquiteto mor do PNBL e da reativação da empresa.

3) Sérgio machado Rezende, Ministro da Ciência e da Tecnologia, que declarou o fato publicamente em entrevista à revista Caros Amigos.

4) Franklin de Sousa Martins, Ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, que também declarou publicamente o fato em entrevista televisada.

5) Rogério Santanna dos Santos, Secretário de Logística e Tecnologia da Informação do MPOG.

6) César Alvarez, Coordenador de Inclusão Digital do governo e influente assessor de Lula e de Dilma.

7) André Barbosa, Assessor Especial da Casa Civil.

8) Erenice Guerra, Chefe-de-Gabinete da Casa Civil e atual Ministra do mesmo órgão.

9) Partido dos Trabalhadores.

10) Representantes da Sociedade Civil na 1ª CONFECOM.

11) Pedro Jaime Ziller de Araújo, ex-presidente da ANATEL.

12) Hélio Costa, ex-ministro das Comunicações, em recentes declarações.

13) Setores influentes do PMDB, incluindo José Sarney e Eunício de Oliveira.

14) Flávia Lefèvre Guimarães, coordenadora da Frente dos Consumidores de Telecomunicações, consultora da associação Pro Teste e representante das entidades de defesa do consumidor no Conselho Consultivo da ANATEL até fevereiro de 2009.

Contra:
1) José Serra e FHC.

2) PSDB e DEM.

3) Grandes operadoras de telefonia (Oi, Telefônica, Embratel, TIM, etc.).

4) Grande grupos de mídia impressa, falada, televisada e de Internet (Folha, Estadão, Globo, Abril, etc. e suas coligadas ou controladas: Valor, Veja, IstoÉ, Monitor Mercantil, RBS, UOL, Terra, etc.)

Ora contra, ora a favor
1) Grandes investidores e corretoras que têm interesse em que as cotações das ações tenham flutação significativa para comprar na baixa e vender na alta.

2) Alguns blogueiros e participantes de fóruns que disseminam boatos e notícias com o intuito de manipular as cotações junto à massa de pequenos investidores, com o mesmo propósito do item acima.

Em conclusão, se depender da atitude, da vontade e das declarações do governo, não há motivos para a Telebrás não ser reativada. Caso contrário, Lula e seus principais assessores seriam tachados de mentirosos e de enganadores do povo, dando voz e argumentos às oposições políticas e econômicas, pois, aparentemente, são só elas que não querem a reativação da empresa.

*Leonardo Araujo é analista de informações
MP permite aos Correios ter empresa aérea - Costa propõe novo negócio para ECT

Valor Econômico - 01/04/2010


A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) poderá ser transformada em sociedade anônima, ter participação acionária em outras empresas e criar sua própria companhia aérea. Tudo isso está previsto em minuta de medida provisória enviada ontem pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa, à Casa Civil.

As novidades poderão levar a alterações na contratação de companhias aéreas pelos Correios. Tornando-se uma SA, a ECT poderá ter contratos mais longos e flexíveis com as fornecedoras de serviços aéreos. A MP também propõe que os Correios possam começar a atuar em correio eletrônico, numa tentativa de levar a empresa ao mundo digital. Prevê-se ainda a criação de escritórios fora do país, para que a ECT amplie sua atuação em operações de comércio exterior.

Antes de deixar o Ministério das Comunicações, ontem, Hélio Costa enviou à Casa Civil uma minuta de medida provisória que reforma o funcionamento dos Correios. Pelo texto, a Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) será transformada numa sociedade por ações de capital fechado, podendo ter participação acionária em outras empresas.

As novidades poderão levar a alterações na contratação de companhias aéreas pelos Correios. Tornando-se uma SA, a ECT poderá ter contratos mais longos e flexíveis com as fornecedoras de serviços aéreos. Pela minuta, a empresa poderá até criar uma aérea própria, mexendo com um mercado que hoje significa centenas de milhões para empresas aéreas privadas.

Conforme o texto proposto pelo Ministério, os Correios poderiam fundar, em parceria com uma empresa privada, uma joint venture para fazer os serviços de transporte de cargas, conhecidos como Viação Aérea Comercial (VAC) e Rede Postal Noturna (RPN). Como SA, a ECT poderia até passar a ter pilotos no seu quadro de funcionários, o que é vetado hoje pela Lei Postal, que poderá ser alterada pela MP.

O Ministério prevê apoio do BNDES na formação da nova sociedade. Para o potencial sócio privado, a perspectiva seria positiva não apenas pelo acesso a recursos do BNDES, mas também porque a joint venture teria os próprios Correios como um cliente cativo e garantido. Em 2009, a ECT gastou R$ 364,3 milhões contratando serviços de VAC e RPN de aéreas privadas. Se os estudos posteriores mostrarem que é viável a criação da aérea própria, no Ministério a expectativa maior é de que seja buscado um parceiro novato no setor, em vez das aéreas que já concorrem no segmento. Uma associação com uma empresa de capital aberto seria a mais difícil.

Depois de publicada a MP, os Correios deverão dar início a um estudo de viabilidade, para avaliar se é mais interessante criar uma empresa em sociedade com um órgão privado ou manter os contratos nas novas condições.

O presidente dos Correios, Carlos Henrique Almeida Custódio, já chegou a defender publicamente a criação de uma aérea própria da empresa há dois anos. O setor é visto como o mais crítico para a atuação dos Correios em seu foco principal, que é o de logística.

No Ministério há uma visão de que os Correios muitas vezes já sofreram com as licitações com as aéreas porque elas passam por problemas financeiros com frequência, porque combinariam preços e porque atrasam os voos.

Para este ano, foram rompidos contratos com a aérea Beta, que apresentou uma série de dificuldades operacionais no passado. Também foram rescindidos recentemente três contratos que a ECT mantinha com a TAF. Anteriormente, a Controladoria Geral da União (CGU) já havia recomendado apuração de responsabilidades em contratos da ECT com a Beta, a TAF e a Skymaster.

Atualmente, as principais fornecedoras da ECT são TOTAL, Air Brasil, Rio e Trip, para serviço postais noturnos. Em 2009, para o serviço aéreo comercial, as principais foram as companhias Gol, TAM, Variglog, MTA, ABSA, Webjet e Rio, segundo a ECT.

Para as companhias aéreas, o contrato com os Correios nem sempre é de grande vantagem porque eles normalmente têm valor mais baixo do que quando os voos são fretados por empresas particulares. Além disso, elas correm o risco de ficar sob a lupa da CGU e do Tribunal de Contas da União (TCU). Como SA, a ECT poderia fazer contratações mais flexíveis, como ocorre com a Petrobras ou a Eletrobras , por exemplo.

Ao transformar os Correios em uma SA, o governo também quer levar mais transparência à companhia, que já esteve envolvida em diversos escândalos, como a CPI dos Correios, que deu início às investigações do mensalão no governo federal. Abrir o capital da companhia em bolsa não é possível, ainda, por restrições na Lei Postal. Segundo interpretações feitas no Ministério, por essa norma, pode haver conflito na participação de investidores privados na empresa, que atua em um monopólio estatal.

No texto da MP há também previsão de que os Correios possam começar a atuar em correio eletrônico, numa tentativa de levar a empresa ao mundo digital.

Outra previsão na minuta é a criação de escritórios fora do país, para que a estatal possa começar a atuar também em comércio exterior, atendendo exportações ou importações de empresas brasileiras.

O texto ainda define com mais precisão quais são as atividades afins dos Correios e o que não se confunde com serviço postal. Com isso, terá maior amparo legal o Banco Postal, por exemplo.

Ontem, ao deixar o cargo e transmiti-lo a José Artur Filardi, seu antigo chefe de gabinete, Costa afirmou que conversou pela manhã com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a minuta, já enviada à Casa Civil há cerca de um mês. Lula teria assegurado que pedirá pressa sobre o tema. O conteúdo da curta minuta ainda pode ser alterado na Casa Civil até sua publicação.

Apesar da perspectiva de iniciação dos Correios no setor digital, ontem, em sua posse, Filardi descartou a participação da ECT no Plano Nacional de Banda Larga, em gestação no governo. Durante sua gestão, Costa chegou a propor à empresa gerenciar o plano, mas agora ele tende a adotar a Telebrás para a função. A assessores, Costa disse que quer ser o relator da MP dos Correios no Senado, para onde voltou.

Como reflexão pascal, alguém já viu, durante os seus oito anos de governo, o Presidente Lula mentir descaradamente para o povo ou voltar atrás em algo que tenha afirmado publicamente que iria fazer?

Santanna, Mazoni, Serpro e Telebrás

*Leonardo Araujo

Rogério Santanna (SLTI - MPOG) e Marcos Mazoni (Serpro) possuem uma relação de amizade e de identidade ideológica que vem desde que ambos começaram as respectivas atividades profissionais em Porto Alegre.

Além disso, Rogério Santanna avalizou a indicação do seu amigo Marcos Mazoni para a presidência do Serpro.

Observemos a trajetória profissional simplificada de cada um.

Desde 2007, o presidente do Serpro é Marcos Vinicius Ferreira Mazoni, ex-presidente da Celepar, a empresa de processamento de dados do Estado do Paraná. Mazoni, substituiu Wagner Quirici, ligado ao ex-ministro Antônio Palocci.


O gaúcho Mazoni, 46 anos, é formado em Administração de Empresas; pós-graduado em Tecnologia da Informação pela Fundação Getúlio Vargas, e em Gestão Empresarial pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Comandava, desde 2003, a Celepar, empresa estadual de informática do Paraná, tendo atuado na presidência da Companhia de Processamento de Dados do Rio Grande do Sul, Procergs, de 1999 a 2002. A indicação de Mazoni, petista ligado à corrente Democracia Socialista, contou com o apoio dos ministros do Sul, Dilma Rousseff, da Casa Civil, e Tarso Genro, da Justiça. A indicação atendeu também a pressão das correntes minoritárias petistas por mais espaço no governo.

Rogério Santanna dos Santos é gaúcho e presidiu a Procempa (Companhia de Processamento de Dados de Porto Alegre) de 1992 a 2003, período durante o qual a entidade tornou-se a primeira empresa pública de processamento de dados a se transformar em uma empresa de telecomunicações, com outorga da Anatel. Durante esse tempo, também foi presidente do Conselho de Ciência e Tecnologia da Cidade de Porto Alegre. Em 2001, Santanna foi também vice-presidente de projetos especiais da Sucesu nacional e em 2003 assumiu seu cargo no governo federal.

Secretário de Logística e Tecnologia da Informação desde janeiro de 2003, Santanna graduou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1984. Em 1987 conclui a Especialização em Gerência e Engenharia de Software e, em 1996, a Especialização em Gestão Empresarial, ambas pela UFRGS. Dois anos mais tarde, em 1998, finalizou a especialização em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas de Porto Alegre.

No Ministério do Planejamento Orçamento e Gestão, Rogério Santanna exerce a função de Secretário Executivo do Comitê Executivo do Governo Eletrônico no Governo Federal Brasileiro. Como representante do Ministério, também é membro do Comitê Gestor da Infra-Estrutura de Chaves Públicas Brasileiras (ICP-Brasil) e Conselheiro no Comitê Gestor da Internet do Brasil (CGI.Br). Exerce, ainda, a Vice-Presidência do Conselho de Administração do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.Br).

Isso posto, pelo que se conhece de ambos e das profundas relações entre eles, não seria lícito supor que Mazoni pretendesse agora "dar uma rasteira" em Santanna, oferecendo o Serpro para substituir a Telebrás, empresa defendida há anos pelo amigo para gerir o plano de banda larga.

Em síntese, é bastante provável que o assunto "SERPRO" também seja uma tentativa de intriga, desinformação ou má-fé semelhante à que foi feita com os Correios recentemente.

*Leonardo Araujo é analista de informações

quarta-feira, 31 de março de 2010

Minicom "descarta" uso dos Correios no PNBL

:: Luís Osvaldo Grossmann
:: Convergência Digital :: 31/03/2010

A inclusão dos Correios como um dos eventuais gestores da rede pública de internet desenhada no Plano Nacional de Banda Larga, foi 'descartada' nesta quarta-feira, 31/3, tanto pelo novo ministro das Comunicações, José Artur Filardi Leite, quanto pelo presidente da própria estatal, Carlos Henrique Almeida Custódio. Segundo eles, não há nenhum projeto da ECT nesse sentido.

"Não existe nada, nem mesmo nenhum estudo para isso da nossa parte", afirmou Custódio. O novo ministro também se disse surpreso com a inclusão dos Correios na lista de possíveis gestores da rede pública de banda larga. "Isso saiu agora, nem sei o porquê. Mas não tem possibilidade, está fora de cogitação. Não vi ninguém falando nada sobre isso no Ministério", disse José Artur.

Mais um crédito, portanto, à boataria que cerca o Plano Nacional de Banda Larga. Segundo o principal autor da proposta em discussão na Casa Civil, o secretário de Logística e TI do Ministério do Planejamento, Rogério Santanna, os Correios chegaram a ser cogitados no passado, mas descartados. A preferência continua com a Telebrás.

Segundo Santanna, caso o presidente Lula opte pelo caminho de reforçar a estatal de telecomunicações, a empresa teria condições de estar operacional entre dois e três meses. “Mas enquanto isso outras ações já podem começar a ser feitas”, afirmou o secretário.

Hélio Costa diz que Plano Nacional de Banda Larga deve ser lançado em abril

O Globo - 31/03/2010


BRASÍLIA - O senador Hélio Costa (PMDB-MG), que nesta quarta-feira deixou o ministério das Comunicações para disputar as eleições, disse no fim da manhã que o governo deve lançar ainda em abril o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). Segundo ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende se reunir em meados do mês com o seu ministeriado para acertar pontos decisivos do projeto.

- No mês de abril, pelo que vejo e ouço das reuniões e contatos que tenho, parece que vai dar para fazer o lançamento do plano - afirmou.
EBX, de Eike Batista, entra em TIC com joint-venture com a Mitel Networks

:: Ana Paula Lobo
:: Convergência Digital
:: 31/03/2010

A EBX, de Eike Batista, e a Mitel Networks formalizaram uma joint-venture para o mercado de TIC. Essa aliança resultará numa empresa - ainda sem nome definido - que irá explorar o mundo de soluções IP, com oferta de aplicativos de telecolaboração e de comunicação unificada.

A iniciativa também possibilitará a criação de um centro de desenvolvimento no Brasil, com olhos para a América Latina, assim como, a produção local de telefones IP, mas não foram adiantados detalhes sobre investimentos, tampouco do modelo de negócios a ser adotado. Uma das apostas é a virtualização de serviços de comunicação.

O anúncio da joint-venture - o primeiro passo da entrada do megaempresário Eike Batista no mundo de TIC, depois dele ter verbalizado o interesse de apostar em banda larga - foi feito nessa quarta-feira, 31/03, pela Mitel Networks, no consulado do Canadá, na capital paulista. O evento contou com a presença de Terence Matthews, chairman da Mitel Networks, e considerado o 'Bill Gates' do Canadá.

Apesar de os principais detalhes do acordo não terem sido revelados - a EBX é uma empresa com ações na bolsa e a Mitel Networks retomou um processo de IPO- abertura de capital - no Canadá, previsto para acontecer em maio - a cerimônia teve tom solene, inclusive, com a presença da cônsul geral do Canadá, Abina Dann, apesar da ausência de executivos da EBX.

Para ela, o acordo da Mitel com a EBX é um sinal evidente do estreitamento das relações entre os dois países. "Temos muito pra crescer nesse relacionamento", destacou. O presidente da Mitel Networks do Brasil, Paulo Ricardo Pinto, adiantou que os detalhes da joint-venture serão conhecidos no final de abril.

Mas antecipou que a nova empresa - o nome será definido - irá incorporar as ativades atuais da Mitel no Brasil. A empresa, com presença local há dois anos, conquistou, segundo o executivo, 5% do market share no mercado chamado de Puro IP.

Fabricação local e Centro de Desenvolvimento de Software

O resultado efetivo dessa aliança com a EBX, que é cliente da Mitel Networks, é a retomada do plano de manufatura local, planejado desde o início das operações da empresa no pais. O primeiro produto manufaturado seria o telefone IP. A intenção é terceirizar a manufatura - a Flextronics pode ser parceira, uma vez que já atua em outras plantas, mas não há nada definido. "Queremos ter essa fábrica ainda em 2010", afirmou Paulo Ricardo Pinto.

Outra iniciativa é a criação de um Centro de Desenvolvimento de Tecnologia no país, voltado para a área de software. O local de instalação do centro não está definido, mas o presidente da Mitel Networks, deu a entender que a unidade não será instalada no Rio de Janeiro - sede da Mitel e da EBX.

Software, aliás, é a grande aposta da Mitel Networks. A intenção da empresa, afirma Terence Matthews é, exatamente, ser inovadora na área de aplicativos e serviços. Não à toa, Matthews não aceitou comparação com os tradicionais concorrentes - Cisco e Avaya.

"Nossa solução é diferenciada. Ninguém tem no mercado. Não fazemos telepresença, fazemos telecolaboração e o nosso segredo está na aplicação. Ela pode ser hospedada em qualquer servidor", destacou.

Para exemplificar, Paulo Ricardo Pinto, lembra que, hoje, boa parte dos clientes da Nortel Networks - empresa canadense em processo de concordata e que vendeu seus ativos para outros concorrentes, como a Avaya na área Enterprise - adota soluções da Mitel para não perder o legado de comunicação.

Indagado do porquê de investir no Brasil - um país onde a infraestrutura de Banda Larga é deficiente, mesmo nas grandes cidades - Terence Matthews não se fez de rogado. Segundo ele, o tempo de investir é 'agora'. Até porque, observou, as operadoras terão que investir em banda larga.

"Os preços desabaram. Não há mais desculpa de custo. Houve uma redução de equipamentos de US$ 1000 para US$9. Pode ter certeza: Banda larga virá e logo. O momento é esse", disse.

Na área de aplicativos de software, a aposta é verticalizar as soluções. Uma das áreas a ser explorada, é óbvio, será a de mineração e gás, onde a EBX atua."A conversa sobre a joint venture, iniciada em agosto do ano passado, inclusive, começou com a celebração de acordos de serviços. Verticais como hotéis, governo, saúde também estão na mira.

Ministro descarta participação dos Correios no plano de banda larga Imprimir E-mail
Tele.Síntese - 31/03/2010

O novo ministro das Comunicações, José Artur Filardi, que assumiu a pasta hoje (31) no lugar de Hélio Costa, descartou a possibilidade de os Correios ficarem com a responsabilidade de implementar o Plano Nacional de Banda Larga. A estatal chegou a ser cotada, junto com a Telebrás, como possível instrumento do governo para universalizar os serviços de internet no país.

Isso (a possibilidade dos Correios assumirem a banda larga) saiu agora. Não sei por que. Não há menor possibilidade. Não vi ninguém no ministério falando nisso e está fora de cogitação”, disse Filardi, após cerimônia em que tomou posse.

O novo ministro disse, ainda, que não tem preferência por algum modelo de rádio digital e preferiu não entrar em detalhes técnicos sobre o assunto porque, alegou, ainda não está informado sobre o tema. Mesmo assim, segundo Filardi, a escolha do padrão a ser seguido será embasada por estudos e diretrizes prévias que já foram definidas pelo ministério.

Impedimento legal

Filardi também comentou o fato de sua mulher, Patrícia Leite, ter em seu nome uma emissora de rádio. De acordo com o ministro, não há impedimentos legais para que ela permaneça como sócia do veículo, mas, se houver algum questionamento, a Comissão de Ética da Presidência da República será convocada. “Aí, nós estudaremos o que fazer”, disse o ministro. (Fonte: Agência Brasil)

Decepcionado com críticas, Eike agora quer banda larga

Valor Econômico - 31/03/2010

Em uma sala de reuniões no hotel New York Palace, em Nova York, onde está hospedado, o empresário Eike Batista, dono de um fortuna avaliada em US$ 27 bilhões pela revista "Forbes", estava ontem visivelmente decepcionado com as críticas que suas empresas têm recebido, o já chamado "risco X".

"Os investimentos são de longo prazo. É preciso captar dinheiro três ou quatro anos antes para implementar projetos de boa qualidade. É isso o que as pessoas não veem", afirmou, ressaltando que não admite que pessoas que desconhecem seus projetos digam que ele está vendendo "vento".

"Até mesmo para abrir uma padaria leva-se algum tempo." Na semana passada, a OSX, sua mais nova empreitada, na área de construção de navios e plataformas para exploração de petróleo, levantou em sua abertura de capital cerca de US$ 1,8 bilhão, bem abaixo do inicialmente previsto. Na operação, Eike teve que colocar dinheiro do próprio bolso: US$ 300 milhões. O plano original para a companhia era levantar US$ 3,15 bilhões em um cenário conservador e mais de US$ 5,5 bilhões caso o preço saísse no teto das expectativas e houvesse demanda extra pelos papéis.

O grupo EBX, controlado por Eike, tem atualmente cinco empresas de capital aberto: MMX, de mineração, LLX, de logística, MPX, de energia, OGX, de petróleo e gás, e agora a OSX. No mercado, ele já levantou cerca de R$ 13 bilhões para suas empreitadas. E quer investir em um futuro próximo em um novo setor, o de banda larga, como confirmou ontem o empresário.

Na banda larga, ele fez uma comparação com a Coreia, país citado diversas vezes como um exemplo a ser seguido em termos de desenvolvimento de tecnologia. "Lá, 90% das casas têm banda larga de 20 mega. Por que o Brasil também não pode ter?", questionou, acrescentando que participaria de um eventual processo de concessão de serviços de telecomunicações e ressaltando que uma rede de wi-fi (conexão sem fio) já poderia causar uma revolução no país.

Eike não descartaria uma parceria público-privada nesse segmento, embora acredite que sempre o melhor seja um processo capitaneado pelo setor privado, devidamente auditado. "No petróleo, por exemplo, o governo exige compromissos. Ganha-se uma licença, mas é preciso se comprometer a investir em 70% de conteúdo nacional. Se isso não for feito, corre-se o risco de perdê-la."

No petróleo, a OGX deve começar a gerar caixa no primeiro trimestre do ano que vem. E ele diz que pretende convidar quem vencer a eleição, seja Dilma Rousseff ou José Serra, para sujar suas mãos de petróleo.

"Não tenho preferência. Não me meto em política", desconversou Eike quando questionado sobre seu candidato à Presidência da República.

Em entrevista a jornalistas do Valor e do jornal americano "The Wall Street Journal", ele preferiu também não se manifestar sobre a possível alteração na legislação sobre os royalties do petróleo.

Eike está em Nova York para participar hoje do seminário "Invest in Rio", promovido pelos dois veículos de comunicação, com a presença do governador Sérgio Cabral. Após o evento, ele tem encontro marcado com bancos e fundos de participações em empresas ("private equity"). Até o fim da tarde de ontem, 22 executivos já tinham confirmado participação na reunião com o empresário carioca.

Na sua conversa com investidores, é bem provável que surjam questões sobre suas recentes investidas na Vale ou sobre sua aproximação com o controlador da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Benjamin Steinbruch. "O Benjamin não vende", disse Eike ontem, rindo. Segundo ele, muitos negócios podem fazer sentido, mas "cada um quer controlar de um jeito e às vezes as coisas não acontecem por isso".

Ele, porém, não descartou uma associação com a Usiminas. "Sobre isso, não posso falar nada", desconversou. No mercado, comenta-se que a LLX, de logística, poderia se associar à Usiminas, que também estaria negociando operações de minério de ferro com a EBX.